Domingo, 17 de diciembre de 2017

Os viajantes e o urso: uma pequena história sobre a amizade.

Recordo a famosa fábula de Esopo - “Os Viajantes e o Urso” para partilhar convosco algumas linhas de escrita sobre a amizade. Como se sabe o grande Esopo para além de possuir grandes qualidades oratórias dominava também a arte de contar histórias com a particularidade de as mesmas evidenciarem pensamentos certeiros e questões morais fortíssimas. As suas histórias datam de um tempo muito longínquo (séc. VI a.C.) mas assumem uma actualidade impressionante. Esopo conta-nos que dois homens percorriam um trajecto longo através de uma floresta muito densa quando, de repente, sem que nenhum deles esperasse, um urso enorme surgiu do meio da vegetação, à frente deles. Um dos viajantes subiu a uma árvore o mais depressa que conseguiu, colocando-se a salvo da fera. O outro, incapaz de enfrentar sozinho o urso, deitou-se no chão e fingiu-se de morto. O animal aproximou-se dele, cheirou a sua cabeça de cima a baixo e provavelmente pensando que estava morto seguiu o seu caminho. Passado o perigo, o homem que estava em cima da árvore desceu. Mas, muito curioso com o que acabara de ver do alto da árvore perguntou: pareceu-me que o urso te estava a sussurrar qualquer coisa ao ouvido. Disse-te alguma coisa? Disse sim, respondeu o outro! Disse-me que não era nada sensato da minha parte viajar com um amigo que ao primeiro sinal de perigo me abandona! Esopo revela-nos através desta história simples e intemporal que os momentos de aflição e de dificuldade são extraordinários para nos revelarem que são verdadeiramente os nossos amigos. Costumamos confundir amizade com outras formas de relações interpessoais. Por isso, no tempo da comunicação global dizemos, com frequência, que temos muitos amigos. Mas, no fundo, todos sabemos que a realidade não é essa. Todos precisamos de amigos e fundamentalmente de bons amigos. Francis Bacon disse a este propósito que a “pior solidão é não ter amizades verdadeiras”. E essas encontram-se mais nas dificuldades sérias e duras que nos momentos de diversão e de felicidade aparente. Esopo questiona a amizade destes dois viajantes perante uma situação difícil. A vida encarrega-se de nos evidenciar isso mesmo ao longo do tempo do nosso percurso. Vamos percebendo que temos poucos amigos mas que nesses podemos confiar porque são verdadeiramente nossos amigos. São aqueles que se riem de nós e connosco. São os que celebram e partilham as nossas vitórias. São os que caminham ao nosso lado e que, acima de tudo, nos dão força e ânimo em momentos tristes e difíceis. São aqueles que nos puxam para cima quando estamos em baixo. São aqueles que partilham connosco os mesmos sonhos e ideais. E uma amizade verdadeira é das coisas mais bonitas que a vida nos pode oferecer. O caminho pode trazer-nos muitas alegrias e tristezas, muitos altos e baixos. Mas tudo é diferente se caminharmos com os nossos amigos. O grande Charles Chaplin disse-nos que a “verdadeira amizade é como a saúde: o seu valor só é reconhecido quando a perdemos”. Vale a pena pensarmos no significado desta frase e da importância que ela pode ter na nossa vida. Às vezes perdemos amigos apenas porque nunca o foram, verdadeiramente. Mas, também podemos perder amigos por coisas de nada. Por egoísmos exacerbados que não levam a lado nenhum ou por excesso de orgulho ou de teimosia, regra geral depositados em coisas sem importância nenhuma. Fazer amigos faz parte do nosso processo de crescimento enquanto seres humanos na medida em que, como nos dizia Miguel Unamuno, “cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos”. Somos seres humanos, repletos de defeitos e virtudes. Para além disso os defeitos devem abundar provavelmente mais do que as virtudes exactamente devido à nossa dimensão humana. Falhamos e erramos muito. Acertamos às vezes. Mas seguimos em frente. Muitos amigos entram e saem da nossa vida. Os que ficam, apesar de todos os nossos erros, são aqueles que verdadeiramente gostam de nós e que, por isso, escrevem os nossos defeitos na areia para que os mar os leve. Os que saem provavelmente nunca quiseram ficar. Não, não é o destino. Somos nós. As coisas são assim mesmo. Junto das luzes da ribalta, espaço onde se encaixam muitas geografias e afectos, os amigos abundam. Nas luzes do escuro e muitas vezes do sofrimento, poucos ficam connosco. Mas, esses são verdadeiros e apenas desejam ajudar-nos a atravessar a ponte das dificuldades para rapidamente passarmos a partilhar com eles a alegria da vida e o doce sabor das emoções. Nestas coisas também não deve haver dramas. O caminho é, acima de tudo, uma grande experiência. É uma grande viagem! E a condição humana não é um sistema de cálculos matemáticos que funcionam sempre com todo o rigor. Falhamos. Falhamos muito! Apesar disso e de todos os avanços e recuos vale a pena fazermo-nos ao caminho e com um brilhozinho nos olhos, como canta o Sérgio Godinho, podermos sempre dizer para o lado de lá que “hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há”. Sejam felizes e não se esqueçam de regar as vossas verdadeiras amizades, mas não as sufoquem, deixem que apanhem o sol e a brisa de todas as manhãs.