A solidão impiedosa


 

Todos gostamos de estar sozinhos. Todos precisamos de estar sozinhos para conversarmos connosco, para nos entendermos melhor. Precisamos de momentos só nossos, únicos e absolutamente individualizados. Fomentamos as pausas e os intervalos das agitações comunitárias. Pertencemos ao grupo mas cultivamos a nossa singularidade. A este propósito, Artur Schopenhauer, disse-nos que “a solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais”. Nesta perspectiva, a solidão  inspira e estimula os actos de criação. Por vezes a nossa companhia é melhor do que a dos outros. Foi por isso que Nietzsche afirmou que não gostava de quem lhe roubava a solidão “sem verdadeiramente me oferecer companhia.” Porém esta solidão é uma escolha nossa. Uma opção. Sabemos que, a qualquer momento, podemos abrir a porta para deixar entrar a companhia ou sair para a procurarmos. Mas existe outra solidão que não é objecto de escolha. É a solidão que nos agarra. É algo que se prende a nós, entranhando-se na nossa pele. E essa outra solidão é, como também referiu Nietzche, o “abandono”. Sim, há pessoas que foram abandonadas e outras que se deixaram abandonar. E nestas circunstâncias a solidão conduz ao isolamento social, ao abandono e à vulnerabilidade. As vidas apressadas que vivemos são o espelho da solidão acompanhada e da solidão efectiva que é transversal a todas as idades. O filósofo japonês Soseki Natsume diz-nos, a este propósito, que “ a solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo.” Na verdade, pagamos um preço demasiado elevado por esta vida tão fugaz que vivemos. Por isso, contribuímos, todos os dias, para que o plano se torne mais inclinado, fazendo-nos resvalar para patamares de silêncio, de solidão e isolamento social. Esta solidão sem escolha ou como resultado de escolhas erradas é impiedoso e conduz-nos ao abismo, à negação da condição humana. Esta solidão mata, demolindo, uma a uma, as paredes que custaram tanto a erguer. Mergulhados nas vidas paralelas e entretidos com as montras das redes sociais deixamos que as nossas vidas se percam nas florestas da insensibilidade deixando-nos, paulatinamente, isolados de nós e dos outros. Temos que perceber melhor os sinais e, sobretudo, devemos estar mais atentos a tudo o que nos rodeia. Se nos ligarmos e re-ligarmos a nós e aos outros podemos fazer da solidão uma escolha interessante. Caso contrário é a solidão que nos escolhe sendo absolutamente impiedosa connosco, isolando-nos e transformando em vulnerabilidades o caminho que devia ser feito de alegria e de partilha.