A ilusão da zona de conforto


A nossa “zona de conforto” é, aparentemente, um estádio positivo em que nos revemos em conceitos como segurança, estabilidade, conforto, …. felicidade, talvez. Quando nos encontramos nesta geografia dizemos para os nossos botões que tivemos sucesso na vida ou que, pelo menos, não precisamos de mais esforços para alcançarmos coisas que julgamos fundamentais para nós. A zona de conforto pode ter múltiplos significados em função da personalidade de cada um. Mas, genericamente, aceitamos que esse lugar de estabilidade nos retira problemas da frente e nos protege das inquietações dos dias e dos confrontos de todas as horas. Faz-nos descansar das agruras da vida e, sobretudo, dos seus permanentes desafios. São por estas e muitas outras razões (que não cabem aqui) que nos sentimos tão bem na nossa zona de conforto. Porém, ao fim de algum tempo, se não ousarmos sair de lá para nos confrontarmos com a realidade que existe para além da bolha de segurança acabamos por apodrecer, lentamente, no nosso leito de tranquilidade. A vida exige sempre de nós. Coloca-nos à prova. Expõe as nossas fraquezas. Ensina-nos. Faz-nos aprender e evoluir. Se nos lançarmos nos desafios que temos pela frente, nomeadamente nos mais exigentes, isso significa que estamos a aprender e a evoluir, descobrindo competências, qualidades e defeitos que julgávamos não possuir. Nós não somos, estamos a ser, como nos ensinaram os filósofos da antiguidade clássica. A beleza do caminho está no combate, primeiro connosco e depois com os outros. É precisamente nesse confronto que não tem que ser necessariamente bélico que nos transformamos em nós. A zona de conforto pode ser muito agradável durante algum tempo. Mas se lá morarmos durante todo o tempo ela vai matar-nos de contemplação exagerada e de estagnação absoluta. O sangue que nos corre nas veias precisa de movimento, acção e luta pelos nossos valores e objectivos. Nessas demandas em que nos metemos podemos perder muitas vezes, mas ganhamo-nos, sempre! Recorrendo ao silogismo cartesiano reforço que se combatemos logo estamos vivos. Se não nos mexermos a partir da nossa zona de conforto morremos, lentamente, em grande tranquilidade e também em absoluto amorfismo. Todos morreremos um dia, isso é certo. Porém morrer em combate tem outro sabor e outra glória. A vida é feita de combates. Vamos a eles para entre uma e outra batalha gozarmos, a espaços, dos nossos tempos curtos de tranquilidade que as nossas zonas de conforto nos oferecem.