Desde Portugal, poemas de Rasteiro y Fitas para Antonio Colinas

 Retrato de Antonio Colinas para la Cumbre Poética Iberoamericana (Salamanca 2005), obra de Miguel Elías

 

Dejo conocer dos de los poemas que han llegado para incorporarse a la antología EL CIEGO QUE VE, la cual formará parte del XXIV Encuentro de Poetas Iberoamericanos, por mí dirigido, con el apoyo de la Fundación Salamanca, ciudad de cultura y saberes. Dicho encuentro, a celebrarse el mes de octubre, estará dedicado a Antonio Colinas.

JOÃO RASTEIRO

Joao Rasteiro leyendo en el Teatro Liceo de Salamanca, durante un Encuentro de Poetas Iberoamericanos  (Foto de Jacqueline Alencar

João Rasteiro (Coimbra, 1965) es poeta y ensayista.  Licenciado en Estudios Portugueses y Lusófonos por la Universidad de Coimbra. Sus poemas han sido publicados en varias revistas y antologías en Portugal, Brasil, Italia, España, Finlandia, República Checa, Colombia, Méjico y Chile. Tiene varios poemarios traducidos al inglés, francés, español, italiano, checo y japonés. Ha obtenido varios premios, entre ellos, el ‘Segnalazione di Merito’ del Concurso Internacional Publio Virgilio Marone, Italia, 2003, y el “Premio Literario Manuel António Pina”, 2010. En el año 2012 fue finalista del Prémio Literário Portugal Telecom. Ha publicado los siguientes libros: A Respiração das Vértebras (2001); No Centro do Arco (2003); Os Cílios Maternos (2005); O Búzio de Istambul (2008); Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas (2009); Diacrítico (2010); A Divina Pestilência (2011); Tríptico da Súplica (2011, Brasil); Elegias (2011); Pequeña retrospectiva de la puesta en escena / Pequena retrospectiva da Encenaçao (2014, antología bilingüe); Salamanca ou a Memória do Minotauro (2014, bilingüe portugués-esapañol); Ruídos e Motins (2016); A rose is a rose is a rose et coetera (2017, 2º ed., 2018) y Poemas em ponto de osso / Poemas en punto de hueso (2017), entre otros.

Yolanda Izard (España), Margalit Matitiahu (Sefarad-Israel), Pío Serrano (Cuba) y Joao Rasteiro (Portugal), en el balcón del Ayuntamiento tras la recepción oficial a los poetas del Encuentro. (foto de Jacqueline Alencar)

O ALFABETO DAS LÁGRIMAS

 

                                                   “siga por esse caminho sem regresso

                                                    siga por esse caminho sem caminho”

                                                              Antonio Colinas

 

Estes são os corpos açoitados e sitiados

nas margens dos rios que perplexos soluçam,

espúria é a sua astúcia que se revela e distorce

sibilante na convulsa gramática do mundo.

*

No exílio fulvo que nos foi concedido, as cinzas

e nem pelas suas fragmentadas fugas

até à exaustão, alcançaremos o segredo

do relâmpago, senão o puro e ébrio desvario

cintilante dos alfabetos das lágrimas

de cada sílaba em que te forjamos morada

e há uma rebelião espargindo como quem desafia

o fígado de Deus, “esse cedro que oscila

na borda do tanque, e que de noite acaricia

as estrelas” dos mercenários de Alexandria.

*

Uma fuga de mísera alternativa à morte

pelas dolorosas fissuras dos subúrbios da poesia

jamais purificará os astros, em sua nasalidade

o bafo do tempo de Deus é circunscrito e vazio.

*

“Os silêncios do fogo” são um sopro atravessado

pela breve curvatura do desejo e alucinação,

sei que o divino encerra a seu próprio erro

e os poetas blasfemam toda a castidade exibida.

*

Neste “rio de sombra”, ó corpos sonhem por sonhar

sem medo das águas o advento e a queda de sonhar.

 

Junho 2021

 

FERNANDO FITAS

 

El poeta portugués Fernando Fitas

 

Fernando Fitas (Joaquim Fernando Rana Fitas, Campo Maior, 1957) é um jornalista e poeta português, que trabalhou em vários jornais de âmbito nacional, nomeadamente em O Século, 24Horas e Tal & Qual. Fundador e director - durante sete anos do quinzenário Outra Banda e chefe de redacção do Noticias de Almada (entre 2005 e 2011), colaborou ainda em diversos periódicos regionais de norte a sul de Portugal, assim como numa das rádios locais do Concelho do Seixal, assumindo a responsabilidade pela emissão de programas culturais durante vários anos. No domínio da poesia tem várias obras distinguidas com prémios literários. Entre eles, o Prémio Agostinho Neto (União de Sindicatos do Porto/CGPT), 1999); Prémio de Poesia Cidade de Moura (1999), Prémio Literário Raul de Carvalho (2000); Prémio de Poesia e Ficção de Almada (2003 e 2014) e Prémio de Poesia Cidade Ourense (Galiza), A sua escrita estende-se da reportagem à ficção, passando pela investigação histórica e recolha oral em alguns concelhos da Margem Sul do Tejo. Autor das obras “Canto Amargo”; “Amor Maltês”; “Cantos de Baixo”; “Silêncio Vigiado”; “Mar da Palha - reportagens”; “Histórias Associativas – Memórias da Nossa Memória”; “A Casa dos Afectos”; “O Ressoar das Águas”; “O Saciar das Aves”; “Alma d’Escrita –Reportagens”, e “Alforge de Heranças”.Companheiro dos cantadores da resistência, José Afonso, Francisco Fanhais e Vitorino na Cooperativa Cultural Era Nova, tem poemas cantados por alguns intérpretes da canção portuguesa, designadamente Chiquita e Luísa Basto.

Fitas es el reciente ganador del II Premio Internacional de Poesía António Salvado – Ciudade de Castelo Branco. Su libro será publicado por Editora Labirinto y en edición bilingüe.

 

CARTOGRAFIA DAS VIAGENS

“No atraveséis aún la frontera infinita”

António Colinas, in “los últimos veranos

 

Regressam as cegonhas. Esses comboios que nunca se atrasam

e chegam sempre a horas à estação que demandam,

ao apeadeiro que lhes aponta o voo, que lhes guia as asas,

apesar de saberem que seu tão velho ofício de observar partidas,

de assitir a chegadas, nunca será rentável.

 

Talvez por isso mesmo, elas regressem sempre

ao lugar onde ergueram a casa, onde se apoderaram do azul e dos longes

e onde vêem ainda aumentar sua prole.

Trazem ao campanário o bulíçio da azáfama, de um vai-vem desudado,

o efémero canto de um bater de bicos que invade o descampado

e sequer se incomodam com o tocar do sino,

chamando para a missa do final de tarde.

 

Esqueceram-se contudo de transportar crianças

de países longínquos, de distantes paragens; transportam simplesmente

a tranquilidade mensurável das coisas que conferem à vida a naturalidade

dos ciclo precisos, guardando na memória o chão que lhes doou

sempre um náco de pão, um púcaro de água,

ao contrário dos donos das terras de sequeiro,

que só se alimentavam da fome dos ganhões

e de quanta miséria havia em suas casas.

 

As cegonhas, repito, regressaram hoje, outra vez, logo pela manhã,

por esse itinerário que só elas conhecem, que só elas percorrem ,

como se respondessem ao estranho chamamento do toque enigmático

dos símbolos que traçam as coordenadas de uma longa viagem,

que poucos homens ousam, que poucos replicam,

sobretudo os que vivem do infortunio alheio,

esses que sequer olham da janela, a paisagem.

 

E por isso retornam, ano após ano, com a pontualidade de quem conhece

o trajecto que as espera, o rumo que lhe cabe,

deduzindo quiçá que o seu regresso aos campos,

possa animar um pouco os dias desses povos,

- agasalhados sempre com samarras de fome-,

colocando em seu olhar uma ténue esperança,

a doce expectativa de um vislumbre de luz

e deixar que segurem entre os punhos fechados

uma corrente de ar - de felicidade.

Otra imagen de Fernando Fitas