Os nossos avatares

O desenvolvimento da internet e das novas tecnologias produziram avanços notáveis no nosso mundo. A evolução é cada vez mais acelerada. Aos poucos e quase sem nos darmos conta as nossas vidas de carne e osso vão-se emaranhando em novas vidas e comunidades virtuais. Paulatinamente vamos criando avatares que vivem por nós em geografias diferenciadas das do chão que pisamos todos dias, vestidos com a nossa pele. Este é um novo mundo tão interessante quanto perigoso. Muitos encontram aqui, nesta realidade diferenciada, a realização de sonhos e o cumprimento de expectativas não alcançadas na vida à superfície. Se no tempo real as pessoas estão tristes, frustradas e infelizes, vão encontrando zonas de conforto nos avatares que vão criando e alimentando em níveis cada vez mais intensos e na exacto proporção do aumento do prazer e da felicidade. Desta forma a vida primeira vai perdendo espaço para dar lugar a uma segunda vida que existe e se desenvolve num campo virtual. À medida que o tempo passa a segunda vida assume o papel principal enquanto a primeira será reduzida à circunstância da produção de energia e a assegurar os mínimos de sobrevivência de um corpo que existe mas que não vive. Estes modelos de vida que vão proliferando por aí são ainda uma expressão minoritária apesar da sua extraordinária margem de progressão. Porém o simples facto de existirem deve merecer a nossa atenção e reflexão profunda sobre os caminhos que a humanidade pode trilhar no futuro se, entretanto, perdermos o controlo das coisas. A nossa vida é demasiado preciosa para a perdermos para avatares, mesmo que isso, aparentemente, resolva as nossas frustrações do presente. A vida que a natureza nos concedeu é uma benção. Aproveitá-la bem, mais do que um direito, é um dever que devemos cumprir da melhor forma que podemos e sabemos. Nada será tão perfeito ou imperfeito que nos permita desperdiçar o que nos foi dado sem condição. Depois da criação nós somos os criadores do nosso caminho. E aí, nessa safra de todos os dias, temos que saber lidar com o que corre bem e, sobretudo, com o que corre menos bem. É assim que crescemos. É assim que nos transformamos em nós. É também por isso que nunca podemos desistir do que somos nem que para isso tenhamos que enfrentar todos os demónios que nos cercam. Os avatares, os nossos e os dos outros, terão o seu lugar num futuro ainda por descobrir. Entretanto, separemos as águas. A vida que é nossa não pode ser votada ao abandono ou colocada em segundo plano. Precisamente ao contrário, deve assumir o seu papel principal. Não tenhamos medo de nós. Os avatares podem esperar. Nós não, porque o tempo passa demasiado depressa.