As águas frias

Há dias o esquentador de águas da minha casa ficou avariado por umas horas. Em resultado disso tive que tomar banho de água fria num tempo frio. O meu corpo reclamou o contraste de temperatura. Lavrou protesto sinbóllico e vociferou contra mim pela circunstância. Eu, sabendo que o meu corpo tinha razão, disse mal da minha vida  e da minha sorte naquele momento. Bradei aos céus! Irritei-me profundamente com aquela situação. Mas o banho tinha que ser tomado porque o ritual das manhãs não podia ser interrompido. As águas frias correram corpo abaixo, cumprindo a sua função higiênica sem hesitar. Cumprido o ritual gélido fiz-me ao caminho para um novo dia que amanhecia. Só um café quente e cremoso reconfortou as veredas internas que minutos antes tinham sido desafiadas pelas invasoras águas frias. Em poucos minutos resolvi a avaria e o esquentador de águas voltou a cumprir a sua função com brio, aquecendo as águas correntes da minha casa. Resolvido o caso o tempo do dia retomou a sua normalidade. Nunca mais pensei no forte efeito momentâneo e episódico das águas frias, que tanta indignação me tinha causado, até me ter deparado com uma notícia de primeira página de um jornal de grande tiragem, acompanhada de uma fotografia que me arregalou os olhos e me fez corar de vergonha. A imagem era, como sempre, mais forte que as palavras. Mostrava-nos um migrante a tomar banho ao ar livre, em águas frias, geladas, num ambiente igualmente de arrepiar, pela neve abundante e pelas circunstâncias. Esta é uma situação que verdadeiramente exige o nosso protesto e acima de tudo a nossa acção. A partir do nosso conforto e estabilidade que nem sempre reconhecemos ou valorizamos devemos colocar mais consciência e coração sobre o que se passa à nossa volta. Bem sei que nós, os cidadãos, não temos, a título individual, o poder de mudar as coisas. Mas em conjunto somos fortes. Podemos dar mais consistência à cidadania para que ela se expresse mais alto, cumprindo e fazendo cumprir os valores humanistas que construíram o mundo ocidental que conhecemos. E nesse caminha colectivo de muitos séculos encontramos todos sinais de que precisamos para não deixarmos que tudo ande para trás. Essa imagem que entrou nos meus olhos é a tradução da dualidade dos mundos paralelos em que vivemos. Não podemos, apesar das dificuldades de circunstância, viver confortavelmente os nossos dias ignorando os nossos semelhantes que batem à nossa porta, em desespero, pedindo auxílio. Não nos podemos queixar das nossas pequenas coisas enquanto os nossos irmãos vivem ao nosso lado como se estivessem na idade média. Estes dois momentos constituíram uma grande lição para mim, mais uma. Afinal estamos a precisar de águas frias para acordarmos da nossa tranquila comodidade, para, de uma vez por todas, socorrrermos quem devemos socorrer, cumprindo a condição humana em todas as latitudes.