Fratelli tutti, um caminho de fraternidade

 

Ao longo do seu pontificado o Papa Francisco tem realizado uma peregrinação notável, procurando penetrar nos nossos corações para, entre muitas outras coisas, despertarmos para a fraternidade e amizade social. Fratelii tutti, sejamos todos irmãos, repete-nos o Santo Padre em apelos sucessivos a partir da Praça de São e em todos os lugares da terra onde os homens e as mulheres, independentemente das suas crenças religiosas, podem e devem assumir a fraternidade como caminho de vida e de insistente promoção da paz e da amizade social. São palavras fortes reforçadas pelo exemplo, pela entrega e também pela coragem. Fratelli tutti é uma luz que nos tem acompanhado no inferno que vivemos em tempo pandémico. É uma proposta genuína que nos indica o caminho e que nos propõe uma forma de vida com sabor a Evangelho, estimulando-nos a amar o outro como irmão mesmo que ele se encontre longe. Neste sentido, esta extraordinária encíclica não é um apenas um texto que resume uma doutrina sobre o amor fraterno mas sim uma insistência na sua dimensão universal. Na verdade, ninguém se salva sozinho como percebemos melhor a cada dia que passa. Precisamos uns dos outros e sobretudo da fraternidade que nos liga. Essa imensa força é alimentada pelo amor e não pelo ódio. É reforçada pelo abraço e pela mão que nos agarra e nos auxilia nos tempos difíceis e não pelos individualismos em que temos caído, nessa absurda tentação de consumismos desenfreados e de ascensão social sem limites e também sem conteúdo. Como pudemos observar e sobretudo sentir através dos efeitos devastadores desta pandemia, é na fraternidade que encontramos o caminho para nos salvarmos verdadeiramente. Sozinhos não somos nada! E como nos diz o Papa citando Vinícius de Moraes, a vida é “a arte do encontro”. Este é precisamente o tempo de promovermos todos os encontros que falhámos ao longo do nosso percurso individual e colectivo para, justamente, recuperarmos a fraternidade que nos alimentará nos dias que correm e sobretudo nos que virão. Os projectos pessoais e cegos de ambição são viagens perdidas e sem rumo que precisam de ser resgatadas por todos, libertando corações e sentimentos verdadeiramente fraternos e de amizade social. A pandemia que ainda se cruza nesta quaresma silenciosa talvez seja parte de um tempo derradeiro de uma verdadeira passagem entre as portas que devem ser definitivamente encerradas e as outras que devem ser abertas para um novo tempo de luz e fraternidade. Inspiro-me nas palavras do Papa Francisco procurando interpretar o mundo que nos rodeia e também a minha geografia da interioridade para afinar a direcção da viagem, desejando alimentar a fraternidade que dá força a todos. Acredito, desde há muito, no abraço fraterno com exemplo maior de ligação aos outros e também como reflexo do nosso aperfeiçoamento interior. Escolhi esse caminho de felicidade, mesmo não deixando de tropeçar em tantos percalços e encontrar tantas desilusões. Nada é perfeito e nós também não somos. Mas se seguirmos a linha da fraternidade encontraremos, depois de muito caminhar, o espaço de afectos que assumirá o conforto do nosso lugar natural. São belas estas palavras de Francisco que nos inspiram. Precisamos agora de reflectir muito sobre elas e, sobretudo, de empreender o caminho do abraço em fraternidade ao nosso irmão para que, na verdade, o sejamos todos, fratelli tutti.