Viernes, 4 de diciembre de 2020

O homem das oliveiras

Um bom amigo disse-me há dias que adora ir sozinho para junto das suas oliveiras. Julgo que é ali na geografia dos seus afectos que vai ao encontro dos seus pensamentos e dos seus diálogos interiores. Enquanto as mãos deste meu irmão por afinidade penteiam a árvore da paz atirando ao chão a azeitona que dará início à sua caminhada até se transformar em azeite, o seu coração liberta-se de tudo o que é mundano para se elevar ainda mais. O retiro para o olival deste meu amigo não é apenas o cumprimento de uma tarefa que por estes tempos é recorrente no território ibérico onde desde tempos ancestrais o homem plantou o que muitas gerações depois se continua a colher. É um ritual! É uma viagem identitária que percorre as suas veredas da interioridade. É no meio das oliveiras que se liberta e limpa a alma. É ali que exibe os seus sorrisos invisíveis e deixa correr as suas lágrimas das dores que a vida sempre nos traz. Homem discreto e possuidor de uma cultura invulgar é também um mestre da narrativa popular que valoriza de forma quase enciclopédia. Tenho aprendido muito com ele ao longo desta nossa viagem comum. Apesar da proximidade ainda não consegui perceber verdadeiramente como é que ele, sendo tão complexo, se consegue traduzir em tamanha simplicidade. O mergulho junto das suas oliveiras no tempo em que caminhamos para o advento dá-me pistas. Mas também não quero desvendar todo o mistério que envolve a sua aparente natureza simples. Essa dúvida em permanência estimula-me a seguir os seus passos a aprender cada vez mais com ele, com o que me diz e, sobretudo, com o que faz. O olival é sempre um território de paz, sabedoria e beleza. É símbolo maior da fecundidade. Ao ser consagrado aos deuses desde a antiguidade clássica continua, em tempos de modernidade, a estabelecer campos de metamorfose interior e de proximidade divina. O homem das oliveiras dá-nos o exemplo da sua maravilhosa jornada. Saibamos aprender com ele a cuidar da terra e da alma para que elas cuidem de nós, mantendo-nos serenos quando tudo estiver mais inquieto por fora e por dentro do nosso coração. O monte das oliveiras é simbolicamente um lugar de retiro, reflexão e espiritualidade. É um lugar de encontro connosco. E todos precisamos do nosso monte das oliveiras, esteja ele nos campos branqueados pela geada de outono ou num canto qualquer da nossa morada.