Viernes, 4 de diciembre de 2020

Nada é certo

Somos resultado do tempo. E este tempo que atravessamos tem um manto de nevoeiro que não nos deixa vislumbrar o caminho. Como não conseguimos ver a estrada que nos levará mais à frente sentimo-nos perdidos, confusos e hesitantes. Como se isso não bastasse o espaço em que nos encontramos tem um pavimento feito de gelo muito fino que se pode quebrar a qualquer momento. O tempo em que nos encontramos é complexo, duro e instável. É a geografia de todas as dúvidas e a morada de poucas certezas. Nada é certo. Tudo é volátil e desconcertante. Mas como nos disse Margaret Drabble “quando nada é certo, tudo é possível.” Ora, é precisamente aqui que devemos plantar o nosso ponto de partida para a seara do optimismo. Se nada é certo e não conseguimos olhar o futuro com as certezas que julgávamos ter, então consumamos o presente até à última gota. Sé nós quisermos tudo é possível. Se insistirmos as coisas acontecem. Provavelmente não vão acontecer com um dia sonhámos e talvez a obra seja muito diferente do projecto. Com esforço e determinação acontecerão coisas nunca sequer imaginámos. E o que ontem era incerto hoje é um belo quadro das possibilidades reais. E aqui vamos nós, uns com os outros, neste mar de incertezas que é a nossa vida. Mas se tudo fosse fácil e certo a nossa viagem não teria o encanto que tem. Aproveitemo-la enquanto o tempo certo nos der garantias, ainda que poucas, da nossa existência. E isso basta para nos lançarmos à aventura mesmo nas manhãs de nevoeiro denso. Se formos, fizermos e acreditarmos, haverá sempre um apito, sustentado por mão amiga, que sinalizará o caminho. Se enchermos o coração de alegria haverá sempre luz no meio das trevas para que possamos fazer do nada tudo o que sonharmos.