Viernes, 30 de octubre de 2020

Os pássaros da gaiola

Nunca gostei de gaiolas e muito menos com pássaros dentro. Gosto da liberdade e do sabor que ela tem. Por isso nunca gostei de coisas aprisionadas nem de liberdades condicionadas. O tempo é para ser vivido em liberdade e responsabilidade. Mas há quem tenha medo da liberdade e insista, a todo o tempo, em colocar pássaros nas gaiolas. Há dias, pousando os olhos nos belíssimos textos de Alejandro Jodorowsky, encontrei esta grande verdade”: “pássaros criados em gaiolas, acreditam que voar é uma doença.” Ora, para além da visão dos pássaros enclausurados, os que querem sair e os que não se aventuram para além do gradeamento seguro que sempre conheceram, existem as gaiolas em que nos metemos e todos os medos que não nos deixam voar. Às vezes, precisamos de nos libertar dos pesos que julgamos seguros mas que, no fundo, nos puxam para baixo, não nos deixando voar para a geografia dos nossos sonhos. Temos que nos libertar de todas as amarras que não nos deixam ser como desejamos e nos condicionam ao ponto de entendermos que isto e aquilo não é nem pode ser para nós na medida em que vivemos nas gaiolas que fomos construindo ao longo da vida e também em todas as outras em que nos quiseram meter, dizendo-nos sempre que este era o nosso sítio e a nossa zona de conforto. Apesar do peso das coisas e do caminho andado há momentos em que temos de cortar as ligações que nos prendem ao chão para voarmos para fora de todas as gaiolas em que nos acantonámos. Às vezes, não conseguirmos o que queremos é uma bênção extraordinária. E, como acontece tantas vezes, uma porta fechada pode conduzir-nos a outras saídas e entradas. Mas nada disso acontece se ficarmos quietos e calados como a nêspera do Mário Henrique Leiria. Sim, temos que voar para onde desejarmos, sobretudo quando insistirem connosco para não sairmos dali, daquele cantinho que nos foi destinado para não incomodarmos muito. O nosso bater de asas pela liberdade deve ser a expressão da nossa vontade férrea de mudarmos as coisas. Nem sempre tudo correrá bem ou conforme o desejado. Mas nada ficará na mesma e, acima de tudo, não morreremos um dia com a sensação de nunca termos tentado, apesar da janela aberta da nossa gaiola nos indicar o caminho para lá de todos os gradeamentos. A vida está aí para ser vivida. Passa num instante. É preciso seguir-lhe o gosto estimulando todos os voos onde construiremos sempre a liberdade e o futuro. Nessa geografia das vontades livres não há pássaros em gaiolas. Há esvoaçares de esperança!