A importância do nada

Utilizamos a palavra nada sem pensarmos no que verdadeiramente significa. Não pensamos no nada. Não conseguimos criar mecanismos na nossa cabeça para imaginarmos o nada e muito menos o nada de que se fez tudo. Andamos demasiado ocupados com coisas de nada que nos entulham o tempo  e que nos impedem de viver o que importa. O universo foi criado a partir do nada. Ou seja, estamos aqui a partir do nada. Mas isso que é tudo parece-nos nada. Fernando Pessoa, através da palavra do seu extraordinário Álvaro de Campos, disse-nos o seguinte: “ Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Sim, não somos nada. Viemos do pó e ao pó voltaremos. Esse será sempre o resultado da nossa curta viagem. Por isso, não nos podemos enredar em nadas que nos impeçam de sonhar. Dizemos nada por tudo e por nada. Mas esquecemo-nos de sonhar para, a partir do nada, desenharmos quase tudo o que nos devia acontecer. Quando em função dos nossos sinais exteriores nos perguntam se está tudo bem respondemos que não é nada. Ou confrontados com alguma coisa que aconteceu dizemos que não foi nada. Às vezes o nada do que não acontece é o nada que temos por dentro a acontecer. O nada que é nada talvez seja demasiado se estivermos atentos ao que o nada nos quer dizer com todos os silêncios de construção de universos futuros. Quando nos agradecem por alguma coisa dizemos de forma educada, “de nada”.  Sim, o nada anda por aí na nossa narrativa e é absolutamente banalizado na medida em que nós desvalorizamos o que é realmente importante. Se escutarmos o que vem de dentro percebemos que não precisamos de ser nada para vivermos todos os sonhos do mundo. E aqueles que julgam que são alguma coisa, afinal não são nada porque andam demasiado empenhados, e cegos, a tentar ser alguma coisa que, no fundo, é nada. O nada que nos marca o ponto de partida diz-nos também onde é a chegada. Pelo meio das veredas do nada apenas temos que ser nós, por inteiro, nesse esforço diário de vivermos todos os sonhos a que temos direito.