Lunes, 6 de julio de 2020

Medir a olho

Num tempo repleto de egocentrismos e vaidades cheias de brilhantinas mas despidas de conteúdo, precisamos que o silêncio venha invadir o nosso espaço para nos ensinar a escutar e a observar os outros. Se estivermos sempre a falar, a discutir ou a vociferar não temos tempo para ouvir os outros e menos ainda para focarmos o olhar no ambiente que nos rodeia no sentido de o percebermos melhor, para nos adequarmos a ele. Se estivermos demasiado centrados no nosso “eu” e mergulhados numa espécie de surdez autoinduzida em relação à geografia externa ao nosso corpo, não conseguimos estabelecer canais de comunicação verbais e não-verbais. A este propósito aprendi ontem uma palavra nova: Nunchi ou noonchi. Um amigo explicava-nos, antes de fazer um brinde, que era preciso “medir a olho” o ambiente que nos rodeia antes de usarmos a palavra no sentido de percebermos se o que vamos dizer pode ou não ter bom acolhimento. De copo ao alto este sábio amigo introduziu junto dos convivas o conceito coreano Nunchi que é uma arte subtil de ouvir e avaliar os outros; ou seja, na nossa lógica ocidental, esta palavra encaixa na linha do que designamos por inteligência emocional. Nas terras longínquas do oriente o Nunchi/noonchi - qual força do poder ocular - é utilizado para a obtenção de sucesso em diversos patamares, desde a área dos negócios à extraordinária e sensível expressão do amor. Sim, em vez de dispararmos palavras para todo o lado e de nos ocuparmos com demasiadas coisas sem sentido que enchem o “vaso” que é a nossa vida, devemos aproveitar o tempo que está à nossa disposição para, com o apoio do silêncio, cruzarmos o nosso olhar pelo ambiente que nos rodeia para aprendermos tudo o que precisamos aprender. Se soubermos, lentamente, caminhar nessa direcção podemos obter sucesso em diversas frentes como advogam os mestres desta arte oriental. Porém, num horizonte mais modesto e adaptado ao tempo e espaço do ocidente, entendo que podíamos começar a avançar na melhoria da comunicação para, simplesmente, chegarmos a diálogos interessantes que, paulatinamente, começassem a substituir os monólogos irritantes que por aí pululam a cada esquina. Aprendamos a “medir a olho” o ambiente que nos envolve para, no fundo, sermos mais sucedidos nas nossas conquistas, ainda que elas sejam traduzidas apenas na humana necessidade de nos sentirmos juntos dos outros que pensam como nós apesar da heterogeneidade, por vezes tão díspar, dos seus argumentos. E se, como foi o caso, fizermos um brinde que vem do coração e com o olhar repousado nos nossos pares estabelecemos uma corrente de energia positiva que a todos nos dará mais força e luz para ultrapassarmos os obstáculos que o destino vai colocando à nossa frente. Este tempo cheio e opaco é uma excelente oportunidade para começarmos a treinar a arte de “medir a olho” para, dessa forma, limparmos os muros e as paredes que fomos erguendo por teimosia, para deixarmos que a nova luminosidade possa reflectir nelas a felicidade que todos merecemos.