Lunes, 13 de julio de 2020

As nuvens negras da ira

“Aprendi através da experiência amarga a suprema lição: controlar a minha ira e torná-la como o calor que é convertido em energia. A nossa ira controlada pode ser convertida numa força capaz de mover o mundo.” Mahatma Gandhi

 

O mundo está coberto de incertezas e de futuros pouco sólidos. Caminhamos em direcção a eles atravessando caminhos pouco seguros e polvilhados de areias movediças. Sentimos no presente os efeitos dos sinais há muito anunciados. A pandemia e o pandemónio cruzam-se agora à nossa frente projectando-nos para o grande ecrã da realidade. A instabilidade avança sobre nós provocando sentimentos de angústia que se revelam através das noites mal dormidas e do olhar de preocupação com que fitamos os dias de amanhã. Não estamos confrontados com o apocalipse nem com infernos em chamas ardentes! Mas estamos todos a lutar contra um inimigo invisível que se torna surpreendentemente real através dos seus nefastos efeitos. A pandemia começa a ficar mais controlada e a perder força. Porém, apesar do seu enfraquecimento sabemos que nada está resolvido. Por isso, continuamos no caminho com as necessárias cautelas. A esperança mora lá mais à frente e ainda é uma luz muito ténue. Mas é ela que nos ilumina e incentiva a viagem. Enquando controlamos as nossas angústias e procuramos regressar à normalidade possível somos confrontados com explosões de ira e raiva por todo lado. É como se, de repente, o desconfinamento tivesse aberto a caixa de pandora onde a ira estava contida, acantonada. No momento em que a pandemia começa a ficar controlada assistimos ao descontrolo da ira que alimenta ódios, agressões violentas e ajustes de contas com a história, lançando o caos no mar da ignorância. Precisamente no tempo em que a humanidade devia estar mais unida na construção do futuro assistimos incrédulos à abertura de fendas profundas e ao lançamento de abismos ideológicos, disponíveis para a disparar todas as armas do extremismo de tudo e mais alguma coisa. Precisamos de consistência e lucidez para enfrentarmos esta pandemia e todos os outros problemas que a escala globalizante em que vivemos nos vai trazer no futuro próximo ou longínquo. A ira, a raiva, o ódio e o rancor não podem constituir-se como as novas bandeiras que agregam as massas em torno de vinganças e de criação de tempestades de violência gratuita. Em tempos tão complexos como os que vivemos não precisamos que a fúria das instabilidades existentes e das provocadas artificialmente por interesses obscuros venham, nesta fase tão delicada, lançar mais lenha para a fogueira. Precisamos de tolerância e acção no estabelecimento de pontes e equilíbrios que permitam passagens para as geografias do futuro onde mora o sol e não estas nuvens negras que nos inquietam. Mahatma Gandhi, disse-nos que aprendeu “ através da experiência amarga a suprema lição: controlar a minha ira e torná-la como o calor que é convertido em energia. A nossa ira controlada pode ser convertida numa força capaz de mover o mundo.” O quadro do nosso horizonte é exigente. Este é o tempo da mobilização do que todos temos de melhor e não do seu contrário. É preciso parar esta intolerante violência antes que ela nos destrua a todos. As estátuas que caem são os primeiros avisos à navegação. A seguir, se entretanto nada fizermos, começam a cair os valores que foram erguidos a pulso, com muito sangue, suor e lágrimas e também com base em muitos erros cometidos ao longo do percurso. Antes que seja tarde demais devemos afastar as nuvens negras da ira do nosso horizonte mental que impedem a entrada do sol e do calor do humanismo e da sabedoria. O combate a esta intolerância que a ira estimula deve ser exercido através das armas da compreensão, do conhecimento e do estender a mão a quem precisa para diminuirmos as desigualdades e as injustiças. Para termos futuro temos que tratar do presente. E para este combate estamos todos mobilizados.