Semear a esperança é desenhar o futuro.

 

Não temos uma boa relação com o futuro. Não nos relacionamos com ele. Não planificamos nada nem perspectivamos as diversas opções que estão ao nosso alcance. Desejamos tudo, agora! Queremos viver a ilusão que o instante nos oferece! Apesar de todas as ilusões do presente martirizamo-nos com o passado, discutimos o que foi feito e o que não foi feito. Perdemo-nos em narrativas ideológicas de interpretação do passado. Dispersamo-nos em leituras disto e daquilo. Não no sentido da análise histórica que é sempre fundamental. Mas na lógica do entretenimento que rouba espaço à construção da novidade. Desorientamo-nos alimentando uma confusão de ideias sobre o que deveria ter acontecido e não aconteceu. Alimentamos bancadas opostas e rivalidades artificiais. Contentamo-nos com isso que é muito pouco. Estimulamos este espectáculo que nos conforta na medida em que não nos obriga a pensar no futuro e, sobretudo, a desenhar melhores caminhos para atravessarmos. Daniel Innerarity, a quem recorro amiúde, diz-nos que “se há coisa que mereça ser cultivada e civilizada, mais do que os espaços físicos, são os tempos, concretamente o tempo futuro, que não pode ser ocupado com exércitos e colonos mas apenas com o desejo e as expectativas. O código dessa ocupação é a esperança, uma virtude que define o ânimo com que os humanos enfrentam essa batalha para ganhar o porvir.” Nesta linha de pensamento e actuação precisamos, mais do que nunca, de alinhar a nossa relação com o futuro e de estreitar os laços que nos unem ao que acontecerá mas que ainda não sabemos o que é. Devemos, ao arrepio de desta indicação de Innerarity, colocar o futuro nas nossas equações do presente. Se o fizermos não estamos a inventar nada. Estamos a tentar acertar nos percursos que necessariamente iremos percorrer e a identificar obstáculos e perigos que podemos facilmente contornar. Se cultivarmos o futuro estaremos a ganhar espaço e tempo para a humanidade. Não se trata de alimentar a ansiedade e o misticismo em relação ao que ainda não aconteceu. Trata-se de sermos, acima de tudo, pragmáticos e de investirmos em tudo o que nos pode ajudar a viver melhor, com mais segurança e mais esperança de vida. Ao vivermos da forma como vivemos estamos apenas a desperdiçar o pouco tempo que está à nossa disposição. Apesar da intensidade do nosso registo não vivemos nada. Corremos de um lado para o outro e repetimos, vezes sem conta, que não temos tempo para nada. E quando temos algum desperdiçamo-lo com discussões estéreis e esforços que nos conduzem apenas a becos sem saída. Depois, se tivermos a sorte de viver algum tempo, vamos encontrar-nos com o futuro, esse perfeito desconhecido e inesperado. Nesse encontro seremos sempre surpreendidos na medida em que não estaremos preparados para lidar com ele. Não se trata de retirar magia à vida e de hesitarmos perante o caminho desconhecido. Trata-se de usarmos a nossa inteligência para investirmos o que pudermos no presente para nos prepararmos para o futuro, desenhando caminhos mais fáceis para trilhar. Como não fazemos isso por estarmos demasiado entretidos com tudo o que se esvai num ápice chegamos ao encontro com o futuro absolutamente despidos, trémulos e hesitantes. O que tiver de acontecer vai cair-nos em cima sem estarmos minimamente preparados para o embate. É por isso e por muitas outras razões que acompanho o raciocínio de Daniel Innerarity, realizando uma interpretação muito pessoal, sobre a imperativa necessidade de dedicarmos algum tempo a preparar e a desenhar o que vai acontecer. Apesar disso acontecerá sempre o inesperado e o mistério da vida. Mas, no meio de todas as novidades, podemos caminhar em trilhos mais firmes se entretanto os tivermos estudado ou construído. O passado será sempre um farol que iluminará as linhas do horizonte que pensarmos atravessar. O presente será sempre esse momento doce e amargo em função do espaço que lhe conferirmos nas nossas vidas. Porém, o futuro será sempre um lugar de estudo e de aprendizagens, de encontros e desencontros, de tentativas e erros, no desenho de linhas que mais do que caminhos serão geografias de esperança. Parece inusitada esta necessidade de empenho no futuro, mas sem ele nunca chegaremos à verdadeira construção da humanidade com base na renovação de tudo o que devemos ser e não do que podíamos ter sido. Para avançarmos por estas veredas da esperança não devemos ter medo. Mas temos que ir com a consciência de todas as incertezas e agarrados a todo o trabalho de preparação que realizámos no presente. Se assim fizermos a viagem terá sempre a beleza do inesperado e a certeza de termos evitado todas as catástrofes desnecessárias. Com trabalho antecipado poderemos, no futuro, apreciar a beleza de todas as coisas simples que não forem comprometidas porque trabalhamos bem e a tempo. O futuro está à nossa espera de braços abertos. E nós seguiremos entusiasmados no caminho, como sempre, embora mais conscientes da nossa responsabilidade. Nesse encontro mais adiante podemos ter todo o prazer com que sonhámos sem retirarmos espaço e tempo às gerações vindouras. Na verdade, temos que fazer do futuro a nossa tarefa fundamental.