Celebrar a liberdade, sempre!

Hoje, em Portugal, celebramos a liberdade conquistada a 25 de Abril de 1974 com a “revolução dos cravos.” Já passaram 46 anos. Depois de quase 50 anos de ditadura e de um período longo de amargura e silêncio chegou essa madrugada há muito esperada. Desde essa ignição da mudança e desse “dia inicial inteiro e limpo” como lhe chamou Sophia de Melo Breyner, vivemos, nesta geografia ocidental da Ibéria, um tempo maduro e substancial em democracia. As imagens de um país cinzento, amordaçado e isolado do resto da Europa e do mundo ficaram há muito para trás. Mas a memória perdura e perdurará para não nos esquecermos, nunca, que já fomos privados da nossa liberdade individual e colectiva. A memória é sempre um farol que ilumina o caminho. É uma lembrança viva para não esquecermos que já vivemos em completa escuridão. E apesar do caminho que percorremos até aqui, de aperfeiçoamento e consolidação do regime democrático, não nos podemos esquecer que ainda nem sequer igualámos o tempo que durou o regime ditatorial e opressivo (58 anos). É pela história de um povo e em nome de todos os que resistiram e nos abriram as janelas da liberdade que devemos celebrar este dia, sempre! É preciso lembrar para não esquecer! É preciso cantarmos a plenos pulmões e de cravo ao peito a Grândola Vila Morena, esse símbolo maior do caminho para o tempo democrático. A liberdade e a saúde são pilares estruturantes das nossas vidas. Não têm preço! Não estão à venda! São insofismáveis, apesar de, infelizmente, contarmos sempre com as aves agoirentas e saudosistas do antigo regime, que vêm a terreiro, aqui e ali, cada vez com maior frontalidade, exibir narrativas que tentam reescrever a história e defender a designada pós-verdade em função de interesses políticos e económicos, pessoais e colectivos, em momentos desta importância. A liberdade que os jovens “capitães de abril” nos garantiram tem a grandeza da construção de espaços onde todos cabem, mesmo os que discordam da liberdade e da democracia tal como a conhecemos. Por muitas razões e por todos, celebrar o 25 de Abril é recordar e reafirmar o trajecto do caminho democrático apesar de todas as suas imperfeições. Celebrar a “revolução dos cravos” é colocar a memória na montra para que possamos olhar ela e reflectirmos no sentido de não abrirmos espaço a todos os que desejam ardentemente cercear a liberdade conquistada a pulso, com o sangue, a dor, o sofrimento e a morte de muita gente. Honrar Portugal e celebrar a democracia e regá-la todos os dias como se de uma planta se tratasse. Hoje, face à pandemia do COVID 19, estamos presos em casa e privados da nossa liberdade de sempre. É um tempo novo, com novas práticas e procedimentos de preservação da nossa saúde individual e colectiva. Mas, apesar destas circunstâncias, não devemos deixar de celebrar e, sobretudo, reflectir sobre a importância da liberdade e da saúde. Uma das maiores conquistas do 25 de Abril foi a implementação de um SNS – Serviço Nacional de Saúde. Todos os profissionais que trabalham neste sistema são hoje os nossos heróis ou como dizia e bem o poeta Manuel Alegre são os novos ”capitães de Abril”. O SNS sendo um resultado da “revolução dos cravos” é hoje um orgulho maior ao qual prestamos tributo e também a nossa eterna gratidão. Aos jovens capitães de Abril de ontem que lutaram pela nossa liberdade e os novos combatentes de hoje que estão na linha da frente a lutar pela nossa saúde devemos o sol que ilumina todos os nossos campos verdes de esperança e repletos de papoilas. É por eles e por nós que devemos recordar o antes e celebrar o depois para que a democracia não escureça com as nuvens cinzentas que, de vez em quando, querem tapar a sua luminosidade. Hoje, em Portugal, cantamos todos em conjunto a liberdade e igualdade na terra da fraternidade porque o povo é quem mais ordena, sempre!