A Cultura em tempo de pandemia

A propósito da pandemia do covid 19 e dos efeitos devastadores que está a provocar no sector da Cultura, um amigo do coração referenciou-me num comentário a propósito das minhas frequentes citações de Winston Churchill. Fiquei muito honrado com a referência às minhas citações a propósito desta circunstância em particular. Sou um grande admirador da figura de Churchill. Sou um fã incondicional das suas expressões, sobretudo as de carácter humorístico, ditas ou escritas em tempos muito difíceis e que exigiam lideranças fortes e determinadas, ainda que com muitos defeitos, como todos nós. Os tempos que vivemos exigem, precisamente, lideranças fortes e determinadas, mesmo com todos os defeitos de cada um de nós. Não estamos em guerra! Mas há um inimigo invisível que nos ataca, nos fragiliza e mata! Não estamos em guerra mas há um inimigo poderoso que nos força ao distanciamento social, provocando a paragem, entre muitas outras, da actividade cultural! Face à pandemia está quase tudo suspenso, cancelado ou adiado! Não nos juntamos para não propagarmos o vírus e não darmos força à pandemia. Todos compreendemos isso! Todos queremos que isto acabe o mais depressa possível! Mas também é preciso que, de uma vez por todas, todos entendamos que a cultura é uma questão fundamental da sobrevivência da humanidade. Sim, precisamos de pão para seguirmos o caminho. Precisamos de saúde como de pão para a boca! Mas também precisamos de cultura para alimentarmos a alma e sentirmos que há mais vida para além da matemática da sobrevivência. Há tempos, numa reunião que teve lugar em Espanha e longe de imaginarmos a pandemia que aí vinha, mas onde se discutia a magreza dos apoios destinados à cultura, citei Churchill, numa das suas célebres reuniões do governo britânico, em plena II Guerra Mundial, quando contrariou um general que pedia a concentração de todos os recursos financeiros no esforço de guerra. Aí, nesse momento de grande combate pela defesa dos valores humanistas, Churchill defendeu a continuidade de um orçamento para a Cultura, caso contrário, disse: “Então, para que estamos a lutar?”. Ora, não estamos em guerra, mas como sabemos, os Teatros foram as primeiras estruturas a encerrar as suas portas ao público, e bem, face à pandemia do Covid 19. Mas essa circunstância como em tantos outros sectores, provocou encerramentos, cancelamentos, perdas de rendimentos e dificuldades maiores no cumprimento das necessidades básicas a todos os que se dedicam à criação e às artes do espectáculo. A este propósito e no sentido de actualizar o pensamento de Churchill cito agora, com maior sentido de  actualidade, o escritor e poeta Manuel Alegre, na defesa da Cultura que no actual contexto pandémico, “é mais necessária do que nunca” e também que “tudo tem que ser repensado.” Face ao actual contexto, o poeta português diz-nos ainda que “a globalização, além de geradora de terríveis desigualdades, também podia trazer a peste negra”, e, nesse sentido, argumenta que “não haverá recuperação sem uma nova visão do mundo” e, por isso ”a Cultura é também uma prioridade”. Ora, os pensamentos de ontem e de hoje, de quem se importa com a Cultura, com os seus protagonistas e com o futuro da humanidade, parecem estar afinados e adequados às terríveis circunstâncias de cada época. Precisamos apenas, no tempo presente, de mais pragmatismo e urgência para salvaguardarmos todas as profissões, criações e vidas que constroem a cultura que nos alimenta a alma e nos faz sonhar, reflectir e viver dias melhores, de abraços, gargalhadas e emoções fortes! Este é um momento difícil para todos! Não precisamos de sentir mais do sentimos esta imensa dor que a todos nos une. Mas também temos que acudir ao presente para salvaguardarmos o futuro. E tudo isso significa criarmos, solidariamente, mecanismos que façam justiça a quem tanto nos deu e dá, em nome da Cultura e do sonho de sempre. Podemos fechar os Teatros em nome da saúde pública e da protecção de todos nós. Não podemos, em circunstância alguma, desligar o interruptor das vidas, tantas, que fazem do espectáculo, da cultura, dos livros, da música… o alimento do futuro que tanto desejamos. Por isso, não podemos deixar morrer hoje os que sempre alimentaram a nossa esperança ainda que a mesma repousasse, de forma ténue, na sombra de um esboço de sorriso. Sim, o futuro também se constrói pela cultura! Por isso e por muitas outras razões não lhe podemos negar o presente. E as ajudas que agora se exigem, mais do que solidárias e urgentes, devem ser dignas e em formato devolutivo de tudo o que os agentes da cultura nos deram durante um tempo longo sem reclamarem preço e condição. Bem hajas César Árias Barrientos, pela tua grande amizade e também por seres esse grande e fiel depositário da esperança num futuro mais humanista, repleto de ventos de mudança, soprados pela cultura ibérica!