O canto dos pássaros

Por estes dias de confinamento as paredes da nossa casa tornam-se mais familiares. Não importa se as casas são grandes ou pequenas. Agora, o que verdadeiramente importa é ficarmos em casa para depois podermos sair. É ficarmos em casa para voltarmos à rua. As quatro paredes, curtas ou largas, são agora a nossa dimensão. Apesar das novas tecnologias da informação e comunicação ao nosso alcance e que nos prolongam as geografias, a verdade é que estamos confinados, em quase reclusão. As nossas inquietações de todos os dias, as nossas ansiedades, as reuniões, as correrias, o tempo cheio e preenchido com tudo e nada… tudo isso passou para um plano absolutamente secundário. O que interessa agora é sobreviver, vencer esta pandemia e, entre muitas outras coisas, aproveitarmos o recato que as nossas vidas agora conhecem para reflectirmos sobre o nosso tempo antes e, sobretudo, imaginarmos o que será o nosso tempo depois de tudo isto passar. Sim, sabemos que vai passar. Não sem dor, sofrimento e morte, infelizmente. Respeitemos o silêncio dos mortos e o esforço quase sobrenatural que muitos estão a fazer para que conheçamos o tempo do futuro. Na história de todos os dias há pequenas e grandes histórias e heróis desconhecidos que salvaram e continuam a salvar vidas, entre pequenos e grandes gestos. Sabemos muito pouco sobre este inimigo tão silencioso como letal. Sabemos apenas que é preciso fazermos em conjunto um caminho estreito para vencermos esta pandemia e a seguir trabalharmos para vencermos, também em equipa, o pandemónio que se instalará nas nossas economias e nas nossas vidas. Mas, uma coisa de cada vez. De momento, devemos focar-nos na sobrevivência a esta pandemia, fazendo o que deve ser feito. Depois, teremos que nos preparar, rapidamente, para enfrentar as outras vagas que aí vêm, outras pandemias e pandemónios. Precisamos de aguentar firme e com os olhos colados ao futuro. O pensamento positivo será a força que nos conduzirá a águas mais tranquilas. Para já, o silêncio que agora reina nos nossos horizontes convoca-nos para uma reflexão profunda. Podemos falar com quem se encontra confinado connosco, com os botões da nossa camisa ou com as quatro paredes que agora nos barram a liberdade que julgávamos inquebrantável. Sim, na verdade, só damos o verdadeiro valor às pessoas e às coisas quando as perdemos. Na passagem do tempo que se cruza com a “passagem” desta semana que será Santa, como sempre, a validação do sentir interior terá, certamente, um significado mais intenso e profundo. É tempo de nos olharmos com atenção para percebermos como cada um de nós tem olhado para o mundo. Não poderemos sair em procissão nem executar os rituais de sempre para celebrarmos a Páscoa e vivenciarmos a recriação dos ancestrais itinerários do sentir. Nesta passagem mais silenciosa e purificadora temos que saber interpretar os sinais a que o próprio silêncio do nosso ambiente nos conduz. Este tempo que nos convoca para uma reflexão diferenciadora exige de nós uma maturidade que julgávamos não possuir. O caminho desta semana não será fácil. Será tão penoso como as que já passaram e as outras que virão. Ainda assim, apesar de todo o desconforto, temos a sorte de podermos estar vivos para chegarmos à varanda e escutarmos o canto dos pássaros e apreciarmos todas as suas melodias. Apesar da amargura dos tempos, aproveitamos o sol que espreita no nosso futuro para pensarmos, no seio das nossas íntimas paredes, se verdadeiramente desejamos viver como vivíamos, antes desta pandemia ter feito parar quase tudo. Se temos mais tempo usemo-lo para reflectir mais no sentido de arrepiarmos todos os caminhos que pudermos. O futuro está aí, ao virar da esquina. Não sabemos bem quando ele começa. Mas, entretanto, devemos iniciar essa preparação para que tudo seja depois mais fácil, com abraços e beijos de outro significado. Sim, agora é tempo de escutarmos os pássaros e tudo o que o silêncio de fundo nos quer dizer.