A força da nossa vontade

“Quando um homem tem força de vontade, os deuses dão uma ajuda”, Ésquilo

 

O grande Ésquilo disse-nos, a partir da imensa sabedoria da antiguidade clássica, que “quando um homem tem força de vontade, os deuses dão uma ajuda.” Nem todos são crentes. Nem todos acreditam num Deus ou em vários deuses, apenas para acompanhar Ésquilo e abraçar o tempo absolutamente plural em que vivemos. Sem fazer julgamentos sobre quem acredita e não acredita num ou em vários deuses, opto pela serenidade de sublinhar que quase todos acreditamos primeiro em nós e na nossa vontade. Apesar disso, sentimo-nos confortáveis, principalmente nas horas de maior dificuldade, com a energia superior que nos transcende, que nos ajuda e, sobretudo, que nos faz avançar quando a nossa máquina esmorece. Porém, é com base na nossa força que avançamos, superamos os obstáculos e também as dificuldades que vamos encontrando no caminho. Por outro lado, como sabemos, a vida nem sempre se alinha com a nossa vontade e raramente cumpre os nossos desejos. Isso significa que o pensamento não basta para que a acção aconteça, para que o sonho se concretize. Para isso é preciso vontade, resiliência e determinação. A força da nossa acção desenhará o caminho apesar de todas as dificuldades. E é precisamente no meio de todas as adversidades que nos construímos e refundamos quando isso é necessário. No decorrer da viagem nascemos e morremos muitas vezes e outras tantas temos que renascer e reinventar os nossos propósitos para seguirmos em frente. A morte literal acontece no fim, quando o homem da barca nos leva para a outra margem. Até lá a nossa força de vontade determinará tudo o que puder. Há coisas que não controlamos. Há forças poderosas e tempestades que se abatem sobre nós, provocando-nos e colocando-nos à prova. É a nossa aprendizagem a acontecer. São as pedras graníticas da nossa interioridade que se lapidam. É o tempo que avança e acontece. Mas, se não tivermos vontade deixamo-nos ir à primeira dificuldade, ou à segunda ou terceira. Às vezes, as dificuldades são tantas que não temos tempo para as contar. Apenas temos que resistir, enfrentar e ultrapassar. Nos trilhos dos ventos contrários que nos sopram no rosto de vez em quando, recordo-me quase sempre de Winston Churchill quando nos recomendou o seguinte: “se pensas que estás a atravessar um inferno continua, acabarás por sair dele.” A nossa história individual terá sempre palavras para juntar. Mas, se reforçarmos a nossa vontade e dermos asas à nossa determinação chegaremos, certamente, mais além do que o destino nos destinou como nos dizia, tantas vezes, Miguel Torga. E chegarmos mais além não é sermos ricos, termos posição social e uma montanha de bens materiais; é, acima de tudo, estarmos em harmonia connosco e com o ambiente que nos envolve. É sermos felizes com pouco. Não se trata de sermos franciscanos no sentido do voto de pobreza. Trata-se de nos ajustarmos ao mundo que vivermos e conseguirmos ser felizes muito para além das luzes que brilham com pequenas nadas de artificialidades que alimentam as cabeças de vento que pululam por aí sem que ninguém lhes diga que o “rei vai nu”!