A hipocrisia é uma arte

 

Todos já fomos hipócritas alguma vez. E quem não foi que atire a primeira pedra! O avanço da idade afina-nos a tolerância em relação a esse defeito ou virtude, nunca sabemos, que escorre pelo exercício da hipocrisia. Quando somos jovens dizemos as coisas que nos vão na alma. Confrontamos os outros nos seus terrenos hipócritas, combatemos as falsidades e as verdades dissimuladas. Somos estoicos, valentes e audazes. Combatemos os moinhos de vento da hipocrisia e não raras vezes batemos com o “costelado” no chão. Perdemos por sermos verdadeiros e por combatermos, de forma heroica (julgamos nós, na nossa inocência) os que, aparentemente, estão a ser hipócritas connosco ou com os nossos amigos. Ao fim de alguns anos, principalmente quando o tempo já nos torrou a pele, percebemos que quanto mais combatemos mais perdemos.  Por batermos, com frequência, contra o muro das verdades insofismáveis vamos perdendo o ímpeto e a jovialidade enquanto afinamos a razão. Nessa metamorfose tornamo-nos mais inteligentes e menos verdadeiros. Aprendemos, paulatinamente, a não dizer a verdade aos outros. No fundo é como se nos juntássemos à equipa dos hipócritas depois de, uma e outra vez, não os termos conseguido vencer. Neste processo de transformação das crisálidas radicais da verdade em borboletas servidoras das verdades convenientes e das hipocrisias suavizadas e oportunas, debatemo-nos com as nossas angústias e inquietações. Aí, depois de nos beliscarmos e de nos reolharmos ao espelho vezes sem conta, percebemos que Shakespeare tinha razão quando sentenciou que o “diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém.” Ora, perante sábias palavras, quem somos nós para contrariarmos os outros quando tecem as suas narrativas fantasiosas e ilustradas com as cores da hipocrisia costumeira? Entramos na dança e experimentamos as tâmaras que nos são oferecidas pelos guardiões da hipocrisia. Percebemos, através da prova, que o doce está fora, o mel nas palavras e o duro lá dentro, na alma. E, percebendo isso, já não vamos tantas vezes contra os muros. Ficamos menos isolados. Afinal, se dissermos sempre o que pensamos vamos colecionando inimigos e desperdiçando oportunidades de sermos felizes, apenas pelo facto de nos sentirmos acompanhados e identificados com o grupo que nos dará guarida na nossa metamorfose. Sim, na verdade, a hipocrisia é uma arte. A arte de exigirmos aos outros o que nós não praticamos. Nesse sentido, e se assumirmos verdadeiramente as coisas como são, percebemos que são curtos os limites que separam a resignação da hipocrisia. Porém, o problema de fundo é outro. Está intimamente relacionado com o que nos disse Nathaniel Hawthorne: “ninguém pode, por muito tempo, ter um rosto para si mesmo e outro para a multidão sem no final confundir qual deles é o verdadeiro.” Pois é, aí é que são elas! Podemos deixar-nos levar pela corrente da hipocrisia, pactuar com ela e fazermos mais amigos que, como nós, vão pelas águas abaixo. Mas, no final do percurso, junto ao açude, teremos muita dificuldade em distinguir o verdadeiro do falso e o sincero do hipócrita. Aí, nesse instante derradeiro, teremos, forçosamente, de perguntar aos nossos botões se a viagem terá valido a pena uma vez que já não sabemos quem somos apesar de estarmos acompanhados de uma multidão ruidosa que também já não sabe muito bem qual a razão de tamanha gritaria!?