Jueves, 1 de octubre de 2020

O progresso, esse tempo descomandado.

A nossa sociedade evoluiu muito nas últimas décadas. Registámos avanços científicos e tecnológicos notáveis. Assistimos hoje ao desenvolvimento de novidades em diversas áreas que até há bem pouco tempo nos pareciam cenas de filmes de ficção científica. Ainda meio incrédulos, confrontamo-nos com o progresso dos nossos dias e, sendo absolutamente fiéis à nossa condição humana, procuramos adaptar-nos, como sempre. Os avanços notáveis das novas tecnologias fazem com que possamos realizar cada vez mais tarefas e com mais eficiência. A esperança de vida tem vindo a aumentar em função do aumento significativo do conhecimento científico na área da medicina e ciências afins, associado à crescente utilização de tecnologias cada vez mais sofisticadas. Olhamos agora para o espaço do universo com outra confiança e até com alguma sobranceria. Cada um de nós vai interiorizando a ideia da existência de vida para além do nosso horizonte conhecido. No mesmo sentido reforçamos a possibilidade, cada vez mais evidente, de começarmos, paulatinamente, a colonizar outros planetas para além da bela esfera azul. Sentimos que o progresso se entranha na nossa pele todos os dias e orgulhamo-nos com tudo o que de positivo a humanidade foi capaz de construir até ao séc. XXI. Mas, se estivermos atentos, sentimos também um frio cortante que nos atravessa o coração e a alma. O progresso também tem o seu lado negro e influencia, de forma muito significativa, a existência de um tempo descomandado. A voracidade dos mercados financeiros, a pressão do sucesso individual e a ditadura do materialismo estão aí para cavar desertos onde outrora existiam prados verdejantes repletos de cultura e de valores humanistas insofismáveis. Não podemos ignorar a nossa história colectiva. Sabemos que o caminho nunca foi um mar de rosas e que de vez em quando o lado negro dos homens levou a melhor sobre todos os valores humanistas construídos ao longo do tempo com sangue, suor e lágrimas! O poder, sempre o poder, foi criando tempos negros e também eles descomandados, que reduziram ao limite a geografia daqueles que sempre acreditaram na liberdade, na democracia e nos estados de direito construídos pelas regras da justiça, do equilíbrio e da igualdade entre todos os seres humanos. Nunca nos podemos esquecer que existiram holocaustos e extermínios em massa em diversas etapas da nossa história. Nunca nos podemos esquecer que o poder e a ambição dos homens podem fazer coisas terríveis à humanidade. Mas também temos que ter esperança em todas as resistências que sempre se ergueram em nome da condição humana e sobretudo em todas as outras que terão que se erguer para revertermos este tempo descomandado, sem valores e sem fraternidade. Não podemos deixar de ter vergonha pela desigualdade social que grassa neste tempo de progresso, em que uns têm tudo e outros não têm nada. Enquanto uns estão na grelha da frente à procura de oportunidades de crescimento e desenvolvimento, outros lutam literalmente pela sobrevivência, procurando pelo pão e pela água que assegure mais um dia de vida que amanhã logo se verá. Se estivermos atentos ao que se passa no mundo, percebemos facilmente que há cenários reais, quase apocalípticos, onde todos os dias morrem milhares de seres humanos perante a quase indiferença dos que estão sentados em cima de uma pirâmide de materialismos bacocos e sem importância nenhuma. Precisamos de mais diferença e menos indiferença, não numa lógica de caridade, mas em verdadeiro sentido de ajuda para equilibrarmos este tempo descomandado que se vai esvaziando de humanidade aos poucos.