A memória e as fotografias do coração

“A memória é a consciência inserida no tempo”, Fernando Pessoa

Fernando Pessoa disse-nos que a “memória é a consciência inserida no tempo.” Talvez por isso, e procurando seguir o som destas sábias palavras, tento não deixar morrer essa consciência para não perder as fotografias que guardo junto ao coração. Gosto de as ver e rever. Assim não me esqueço das pessoas que já não estão e das memórias das coisas boas que surgiram no caminho que foi percorrido. A consciência gosta de arrumar as memórias em gavetas. É selectiva. Prefere as imagens boas; as que estão focadas no pensamento positivo, em detrimento das outras que nos recordam os maus momentos. Todos temos dessas fotografias que sinalizam os tempos bons e maus da nossa viagem. Porém, umas não têm importância sem as outras. As imagens a cores e a preto e branco equilibram-se e juntam-se às outras, às desfocadas. Alimentam a memória e cumprem o desígnio de Pessoa, colocando a consciência em cada tempo. A jornada completa-se no antes e no depois. Como se sabe, o passado e o presente estão intimamente ligados. Neste sentido, a  memória é ponte que tudo liga. E se nós assim entendermos, as gavetas das fotografias devem abrir-se sempre que a saudade aperta. As memórias menos boas também estão lá, bem arrumadas nas gavetas inferiores e menos utilizadas. Estão longe do coração. Mas também as temos que visitar de vez em quando, nomeadamente para valorizarmos ainda mais as pessoas que sempre nos fizeram bem, as que nos deram amor e as que nos ensinaram muitas coisas. As imagens que retratam tempos maus são avisos para a navegação do nosso tempo curto. Recordam-nos que não devemos cair nos mesmos erros. Essas fotografias não estão guardadas no peito mas são lições que não devemos esquecer. Devemos arrumá-las para não tropeçarmos nelas sempre que quisermos andar para a frente. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que são faróis a iluminar o caminho e a puxar pelas coisas boas das pessoas que já não nos podem abraçar. A nossa memória, nas palavras do ensaísta Joseph Joubert, “é o espelho onde observamos os ausentes” e, reforço eu, de todas as coisas e momentos que os ponteiros do relógio já nos levaram. O tempo que já andou para trás não pode andar para a frente. O que está perdido ou ganho não tem nem presente nem futuro. Mas esse tempo que podemos observar através do espelho da memória diz-nos, vezes sem conta, para não perdermos tempo com futilidades, estimulando-nos a amar quem nos quer amar e a dizer as coisas belas que devemos dizer antes que seja demasiado tarde. Por vezes, no nosso egoísmo tolo e sem sentido ignoramos que o tempo passa demasiado depressa e que quando nos dermos conta também nós estaremos dentro do espelho e transformados em memória dos que não nos esquecerão. Também desaparecemos das fotografias dos que nunca se lembrarão de nós. E se não estivermos nessas memórias deixaremos de existir para todo o sempre. É aí, nesses instantes de imagens desfocadas que nos arrependeremos de termos passando tanto tempo com gente que nunca gostou nem gostará de nós e de não termos escrito mais histórias de amor com todas as pessoas que nos guardarão sempre no coração. Para cumprirmos o desígnio de Pessoa temos que arrumar melhor as nossas gavetas. As do passado e do presente. E se quisermos ser felizes nesse instante que é a nossa vida, devemos fazer as opções certas que são sempre comandadas pelo coração!