Miércoles, 26 de febrero de 2020

É preciso melhorar a nossa relação com o futuro

O espanhol Daniel Innerarity, um dos maiores pensadores do nosso tempo, oferece-nos palavras repletas de sentido e paletas de estímulos para a nossa reflexão individual e colectiva, nomeadamente sobre o tempo que temos à nossa frente. Na publicação “o futuro e o seus inimigos” o filósofo espanhol realiza uma apaixonada defesa da esperança política, procurando tranquilizar-nos, ao mesmo tempo que nos exulta para acordarmos da letargia em que andamos mergulhados. Sim, precisamos de melhorar muito a nossa relação com o futuro, na medida em que temos vindo a hipotecar socialmente o seu tempo e a exercer “sobre as gerações vindouras uma verdadeira expropriação temporal” transformando o futuro “na lixeira do presente.” A nossa sociedade actual vive muito no presente. Vive para imediatismos. Para todas as urgências da ditadura do “agora”. Não pensamos no futuro, na sua sustentabilidade. Não temos preocupação com o legado que queremos deixar às gerações que se seguem. De forma egoísta queremos tudo para nós. Por isso, alimentamos o sugadouro financeiro que esvazia o ambiente, a comunidade e a própria democracia. Enfraquecemo-nos por sermos, no presente, demasiado vorazes em relação a tudo e a todos. Outro pensador emergente, Yuval Harari, desafia-nos para uma reflexão profunda sobre o caminho da humanidade, alicerçada na história e no que está a acontecer no presente, com particular ênfase no efeito que as novas tecnologias e avanço da ciência estão a provocar em nós. Este professor de história diz-nos que somos os novos “frankensteins” na medida em que a bioengenharia e a designada engenharia ciborgue vão construindo, paulatinamente, novos seres humanos que conjugam as componentes orgânicas e inorgânicas. Por isso, reforça que “de certa forma, quase todos nós somos biónicos nos dias que correm, uma vez que os nossos sentidos e funções naturais são complementados por aparelhos como óculos, pacemakers, próteses e mesmo computadores e telemóveis.” Vale a pena escutarmos as mensagens fortes dos que tendo estudado e reflectido muito sobre o caminho que a humanidade tem vindo a percorrer para, com a clareza das suas ideias, corrigirmos a rota antes que seja tarde demais. Modestamente e dentro das minhas possibilidades, tenho vindo a alertar para a necessidade de colocarmos mais coração e humanismo nas coisas que fazemos. Sem procurar a defesa exacerbada dos grandes valores humanistas procuro encontrar na luz que deles emana a melhor visão possível para o caminho e sempre com a esperança na construção de um futuro melhor para todos nós. A velocidade estonteante em que nos movemos no dia-a-dia deve regressar a um ritmo mais consentâneo e compatível com a designada qualidade de vida. O tempo que está à nossa disposição é muito curto. E às vezes corremos de forma louca para nada e para lado nenhum. Precisamos de melhorar a nossa relação connosco, com a nossa comunidade, para melhorarmos a nossa relação com o futuro. Se não fizermos isso, com urgência, caminharemos todos para um futuro estranho, estreito e com menos coração. É tempo de pararmos para pensar. É tempo de agirmos, por nós e pelo nosso futuro.