Viernes, 24 de enero de 2020

Tenho confiança no vento que passa

 

Como serão os dias de amanhã? Não sabemos! Ninguém sabe. Apenas podemos confiar no destino que destina e no que nós podemos fazer para cumprirmos os nossos sonhos. Volta e meia regresso a Miguel Torga. Inspiro-me muitas vezes nos seus pensamentos fortes e densos, sobretudo nos que dizem respeito ao caminho, à viagem. Também como ele quero deixar que o vento que passa me leve, sendo eu “poeira e folha de outono, rês tresmalhada que não quer abrigo no calor do redil de nenhum dono”. Como Torga também quero que o vento me leve para onde entender, de forma livre, e que me “deixe cair no deserto de todas as lembranças, onde eu possa dormir como no limbo dormem as crianças”. Tenho confiança no vento que passa. Por isso tenho confiança no futuro e no chão que piso. É nele que guardarei sempre as memórias e lançarei ao solo as sementes de esperança que germinarão em cada ciclo. Às vezes, sentado num penedo da nossa geografia dos afectos contemplo o horizonte. Aí, nessa solidão intimista, curo as feridas que resultam das pequenas e grandes batalhas que são travadas todos os dias, e renovo as forças para seguir em frente. As certezas desta vida tolhem-nos os movimentos e não deixam que o raciocínio se desenvolva. O vento que passa leva-nos, de forma livre, para todas as geografias da incerteza para, entre muitas outras coisas, aprendermos a cair e a levantar-nos do chão. O recomeço é como o sol que nasce todos os dias para nos iluminar o caminho. Miguel Torga, mestre das palavras, estimula a nossa resiliência ao mesmo tempo que nos empurra para as viagens que temos que fazer, dentro e fora do nosso peito. Sussurra-nos ao ouvido para não nos deixarmos intimidar com as coias que estão certas e seguras. A liberdade é como a poeira e a folha de outono que seguem caminho através da brisa fresca e renovadora das manhãs gélidas do tempo que nos atravessa. Sim, tenho confiança no vento que passa. Apanho sempre boleia nas suas asas para continuar a alimentar todos os sonhos que moram no futuro e também a desenhar os caminhos que ainda não existem. Para seguirmos de coração livre precisamos de poucas certezas e de muita confiança em nós e no que acontece. Por isso, e mergulhando mais uma vez nas palavras de Miguel Torga, renovo a minha confiança, deixando que ela se alimente da brisa suave e dos sinais que o futuro nos dá: “o que é bonito neste mundo e anima, é ver que na vindima, de cada sonho, fica a cepa a sonhar outra aventura…e que a doçura que se não prova, se transfigura, numa doçura, muito mais pura e muito mais nova.” Sim, o caminho está repleto de dificuldades. Isso também quer dizer que é o caminho certo. Apesar de todas as contrariedades sigo sempre em frente animado e pleno de confiança no vento que passa.