Martes, 25 de febrero de 2020

O dia depois de ontem

O solstício de inverno já teve lugar. Agora tudo está certo e perfeito. A natureza cumpriu, mais uma vez, o seu ciclo anual. O seu destino. E nós cá estamos, no caminho do tempo frio, para cumprirmos também o nosso ciclo, inspirados pela luz da noite, o solis invictus, e abraçando todos os que pudermos abraçar porque a jornada é mais curta do que parece. Entre solstícios e equinócios tudo gira à nossa volta em ritmo quase estonteante. Hoje estamos mais velhos que ontem. E assim sucessivamente. Os ponteiros do relógio não andam para trás por muito que às vezes desejássemos. Tudo anda para a frente sem contemplações de qualquer espécie. O tempo em si já é acelerado. E nós não temos a capacidade de, pelo menos, o tentarmos abrandar, fazendo as coisas de que gostamos e procurando trazer luz e felicidade aos que vão no barco connosco. Não somos perfeitos. Muito longe disso. Falhamos! Falhamos muito e tantas vezes. Falhamos, quase sempre, com quem não devíamos falhar, com os nossos! Com os incondicionais. Às vezes as nossas maiores capacidades são também os nossos maiores defeitos. Damo-nos tanto aos outros que nem sempre reservamos espaço para nós, para recebermos. E sem reciprocidade não conseguimos alimentar a nossa alma e estimular o melhor da nossa dimensão. O ano está acabar neste fria chegada do inverno, repleta de ventos e de águas que escorrem de todos os lados. O inverno anunciou-se esta madrugada com voz grossa! Mas, apesar do seu estrondoso vigor, emprestou-nos a sua luz para vermos melhor o caminho e também para fazermos melhores escolhas. O tempo que corre depressa diz-nos para escolhermos com o coração apesar dos muros que todos os dias se erguem por tudo e por nada. A mesquinhez e a eterna necessidade de conflito reinam por estes vales agora cheios de manhãs de inverno. É preciso luz para o caminho porque ele é difícil. E se é difícil é o caminho certo. Hoje é o dia depois de ontem que acolheu o solstício da madrugada. Depois de amanhã acolheremos nova luz nos nossos corações. Nascerá o Menino e a estrela flamejante guiará todos os que vierem por bem. Dos mais abastados aos mais humildes todos receberão essa bênção do milagre da vida que todos os anos constrói e reconstrói o nosso calendário. Depois da meia-noite em ponto, hora a que se iniciam as visitas ao estábulo, terá lugar uma atitude fraternal de abraço e de contemplação para deixarmos que a mensagem da simplicidade se descodifique em nós. A esta hora certa o Natal acontece na sua forma mais simples e genuína. O Menino ali está, no alto da sua simplicidade, a querer dizer-nos para nos deixarmos de futilidades e para agarrarmos as coisas do coração enquanto é tempo. Depois basta seguirmos o caminho dos pastores, com o cajado e o alforge, e sempre com a esperança que a luz que corre no horizonte nos oriente os passos até ao nosso destino. As palhas que servem de cama e trono evidenciam na sua simplicidade uma força majestática! Se soubermos interpretar os sinais que desfilam diante dos nossos sentidos, levaremos no caminho apenas o indispensável para podermos encher o alforge com todos os afectos que conseguirmos dar e receber.