Miércoles, 26 de febrero de 2020

O que será de nós amanhã?

Os tempos que correm são difíceis. Aliás, os tempos que foram correndo ao longo dos caminhos da história foram sempre difíceis. Mais para uns do que para outros, naturalmente. Mas sempre existiram crises, disto e daquilo. A este propósito o tempo presente não nos oferece nada de novo. A metamorfose do mundo foi acontecendo em ciclos e contraciclos. Em avanços e recuos. Entretanto, a ciência avançou muito nos tempos da modernidade. As tecnologias fizeram-nos galgar diversos patamares de progresso. Crescemos e multiplicámo-nos. Evoluímos muito em muitas áreas do saber. A nível colectivo sabemos muito mais do que muitas gerações antes de nós. O acesso à informação e a quase tudo o que acontece está ao alcance de quase todos. A aldeia global em que vivemos é agora uma espécie de gaiola de vidro onde quase tudo está à vista de quase todos. Com um pequeno aparelho e através do simples deslizar dos dedos da nossa mão conseguimos gerir mil e uma coisas. Até há bem pouco tempo o manuseamento multifuncional do telemóvel seria uma coisa impensável e nem sequer imaginável, mesmo nos melhores filmes de ficção científica. Sim, avançámos muito no conhecimento e na tecnologia mas perdemos o balanço e o equilíbrio com a natureza e connosco. A nossa dimensão humana esvai-se, aos poucos. A competição desenfreada que a espuma dos dias nos impõe faz da nossa individualidade um microcosmos que se isola da comunidade. Os valores comunitários vão-se perdendo na bruma e, com eles, perde-se uma forma de estar, pensar e sentir o outro. A tradição deixa de fazer sentido. Inventam-se novas tradições desde que elas sirvam os interesses de alguém em determinado momento. Perdemos o balanço com a natureza. Matamo-las aos poucos apesar dos avisos constantes da comunidade científica que ainda vai resistindo a esta máquina avassaladora da contemporaneidade que tudo arrasa em nome do “salve-se quem puder”. Tudo passa muito depressa. Aliás, parece que os ponteiros do relógio andam mais depressa. Deixámos de olhar para trás e de contemplar o presente. Lançamo-nos em viagens rápidas em relação ao futuro. Perdemos identidade. Ignoramos o compromisso, a coesão e a solidariedade. Estimulamos a hipocrisia. Alimentamos a nossa própria fragilidade. Vamo-nos aniquilando, lentamente. Não sonhamos com o futuro nem com o resgate das nossas memórias e de tudo o que fez de nós quem somos. Apenas desejamos ir em frente e chegar primeiro, ultrapassando tudo e todos, pela esquerda e pela direita. Estamos a perder a essência, o foco e todas as geografias onde ainda moram os sentidos e o pulsar do humanismo. Tomamos decisões, sem pestanejar, em nome da racionalidade. Deixamos as emoções de lado para nos centramos nos números frios e em tudo o que representam. Fazemos somatórios e aplicamos fórmulas. Estamos a deixar de pensar com método e com visão panorâmica. Não desenvolvemos o sentido autocrítico. Seguimos a manada. Vamos com os outros. Vamo-nos perdendo e, com isso, estamos a hipotecar o nosso futuro. Se não arrepiarmos caminho para resgatarmos a réstia de humanidade e de esperança que há em cada um de nós podemos apenas caminhar em frente, mas em direcção ao abismo sem retorno. Se nos distrairmos mais o futuro também se distrairá connosco.