Sábado, 14 de diciembre de 2019

É preciso abraçar mais!

Aí andamos nós, numa corrida desenfreada, surfando a espuma dos dias. No tempo da nossa actualidade as novas tecnologias da informação e comunicação absorvem-nos por completo. São quase extensões do nosso corpo. Ao alcance dos dedos da nossa mão está o mundo inteiro que se encontra ligado à internet. Num pequeno ecrã e com o deslizar dos dedos temos acesso a frases, fotografias, vídeos, comentários e, sobretudo, muito disto e daquilo. Como vivemos no tempo da impetuosidade apressamo-nos a comentar tudo o que o deslizar dos nossos dedos nos consegue mostrar. Em poucos instantes comentamos o que o “feed” nos exibe e dizemos de nossa justiça. Sim, julgamos sem saber dos factos. Vamos na onda de uma corrente de opinião sem sabermos se é verdadeira ou falsa. Lançamos todas as nossas raivas e frustrações nesse caudal vertiginoso de palavras e imagens. O verbo fácil e rápido, sem critérios editoriais ou sem qualquer espécie de enquadramento ou explicação, dá-nos o impulso necessário para, através de um confortável sofá, descarregarmos tudo o que nos apetece em cima dos outros que passam diante dos nossos olhos. Lançamos disparates sem fim, exibimos a nossa intimidade e colocamo-nos alegremente no confessionário do espaço público. Alimentamos ódios e ressuscitamos velhos fantasmas que estavam adormecidos há muito. Neste tempo sem tempo não folheamos um livro nem praticamos a conversação e o exercício do contraditório. Não conversamos, debitamos opiniões sem fundamento. Não estudamos nada. Passamos tudo pela rama! Lançamos pedras feitas de palavras duras que espumam de raiva. Condenamos tudo e todos enquanto exibimos caminhos de felicidade que só existem para inglês ver! Colocamo-nos do outro lado do espelho para assistirmos às vidas dos outros em vez de vivermos as nossas. Enquanto as redes sociais nos absorvem cada vez mais há um tempo real, com gente de carne e osso, que tem problemas sérios que acontecem sem que os seus dedos consigam sequer alcançar uma campainha de uma porta que lhes franqueie o acesso à ajuda de que necessitam. Entretanto, os caminhos estão repletos de gente cabisbaixa que olha para os seus pequenos aparelhos e se esquece de olhar em frente e de dar os “bons dias” a que passa. Este tempo que podia ser de esperança, alicerçado nas conquistas da modernidade e naturalmente nas imensas possibilidades que as novas tecnologias nos proporcionam, é cada vez mais uma geografia fria, onde a condição humana vai perdendo o valor que custou tanto a conquistar. Não podemos estar contra as novas tecnologias. Precisamos delas. Fazem-nos falta. Temos é que aprender a equilibrar as coisas. No fundo, precisamos de abraçar mais e debitar menos palavras de irracionalidade por segundo, gastando menos tempo com o que não importa e investindo mais nos afectos e nos abraços. E se levantarmos os olhos do chão encontraremos certamente outros olhos para cruzarmos linguagens verbais e não-verbais, semeando esperança para o nosso caminho humanista. Temos que utilizar as redes sociais a nosso favor, preservando a intimidade, a nossa e a dos outros, para ganharmos mais espaço e tempo para nos abraçarmos mais e com mais intensidade!