Jueves, 5 de diciembre de 2019

Aposentação Social: está preparado?

“A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo.”  Soseki Natsume

Um dia, se tudo correr bem, aposentamo-nos! Deixamos as nossas funções profissionais para mergulharmos na derradeira etapa da nossa vida. É assim, desde há muito, nas sociedades ocidentais, repletas de regras e de divisões estanques dos nossos ciclos de vida. A nossa sociedade moderna e fundada nos pilares da revolução industrial foi-se organizando para encaixar a vida das pessoas em função da sua produtividade. O quadro das convenções sociais que foi desenhado ao longo deste tempo mais recente empurra, literalmente, quem tem mais de 65 anos para fora do sistema produtivo decapitando, num gesto rápido de “guilhotina”, a designada idade activa dos cidadãos. De um momento para o outro uma pessoa deixa de fazer parte do sistema, precisamente no tempo em que reúne mais saber, experiência e capacidade de reflectir sobre as questões da actualidade. Naturalmente, sou apologista da renovação e, sobretudo, da renovação geracional que comporta, entre muitas outras coisas, a abertura de portas para que os jovens possam dar o seu melhor (e fundamental) contributo ao sistema. Mas sou contra esta forma abrupta de atirar as pessoas, em função da idade, para forma do sistema produtivo, mesmo que na maioria dos casos as condições físicas não sejam, como é de esperar, as mais enérgicas! Julgo que todos ganharíamos se a aposentação não acontecesse de forma abrupta, mas sim de forma gradual, em função da vontade e da capacidade de cada um e também de acordo com a estratégia de cada instituição empregadora. Podemos sempre dizer que a partir dos 65 anos as pessoas já trabalharam muito e que, merecidamente, precisam de descansar. Essa é uma grande verdade e, em muitos casos, é o melhor que pode acontecer a quem precisa, por muitas razões, de cortar o vínculo laboral e ganhar espaço para o descanso ou para o desenvolvimento de projectos pessoais adiados por falta de tempo. Mas, por outro lado, a aposentação pode ser uma coisa terrível para a vida das pessoas na medida em provoca quebra de rotinas activas, isolamento social e solidão. Nas sociedades modernas as pessoas mais velhas não são tão valorizadas como nas sociedades ditas tradicionais, onde os idosos são respeitados e confirmados como autoridades na família e na comunidade. A nossa realidade ocidental empurra os cidadãos para uma espécie de “aposentação social” fazendo com que, por diversas razões, as pessoas deixem de circular como circulavam no tempo da sua actividade profissional. Neste contexto, o isolamento e a solidão ganham espaço. A saúde ressente-se ainda mais. Os problemas começam a acontecer ou a agravar-se. A solidão constrói muros e dificuldades que começam a ser insuperáveis. As famílias são menos coesas e têm cada vez menos tempo para os mais velhos. As reformas, curtas ou de carteira larga, assumem uma espécie de mecanismo de sobrevivência que liberta as famílias da responsabilidade de cuidar. Para isso existem instituições. Os tempos agitados e profissionalmente preenchidos, os filhos, os amigos e actividades sociais não deixam espaço para os mais velhos interagirem neste sistema de relações humanas cada vez menos sensível para as questões dos afectos. A idade maior assume a sua condição de fardo. Isola-se e agarra a solidão como uma espécie de pena que tem de cumprir. Mas a solidão mata! E como nos disse o filósofo japonês Soseki Natsume, “a solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo.” Em função das nossas circunstâncias estamos mentalmente preparados para a nossa aposentação profissional. Pensamos sobre o que fazer com o tempo livre disponível. Fazemos planos disto e daquilo. Pensamos nas viagens e loucuras saudáveis que desejamos fazer e nunca fizemos também por isto ou aquilo. Mas não sabemos o que é a aposentação social. Não estamos preparados para ela. E isso mata-nos em vida! Mata-nos antes do tempo! Deixamos de viver para sobreviver. Para passar o tempo da nossa condição! Uma sociedade que deseja ser moderna tem que ser inclusiva. Tem que, forçosamente, tratar destas questões para melhorar a coesão da sua comunidade e contribuir para a felicidade de todos independentemente da sua idade, saúde ou condição social. Mais do que dizer é preciso fazer. E fazer é construir redes de apoio e mudar mentalidades. A coisa não é fácil, mas faz-se.