Jueves, 12 de diciembre de 2019

Entre a palavra e o silêncio

 “Para criarmos inimigos não precisamos declarar a guerra mas dizer o que pensamos.” Martin Luther King

Ultimamente tenho reflectido, com alguma densidade, sobre o efeito de uma frase célebre atribuída a Martin Luther King: “para criarmos inimigos não precisamos declarar a guerra mas dizer o que pensamos.” Trata-se de uma frase poderosíssima que todos os dias tem cabimento no nosso trajecto de vida. Podemos olhar para ela no seu sentido figurado na medida em que não estamos sempre em guerra. Naturalmente, também existem momentos de paz no caminho. E ainda bem. Porém, a verdade que estas palavras encerram convoca-nos para uma viagem entre o passado e o presente para, entre muitas outras coisas, pensarmos nos diversos momentos da nossa jornada em que dissemos aos nossos interlocutores o que genuinamente pensávamos. Com essa verdade e frontalidade abrimos a caixa de pandora e estimulámos demasiadas tempestades à nossa volta. Confrontados com as consequências que a verdade das nossas palavras provocou num determinado momento da viagem pensamos também nas alternativas e possibilidades de cada enquadramento. Perguntamo-nos, por exemplo, se a via do silêncio não teria sido uma opção mais adequada em determinadas circunstâncias. Às vezes, não dizer nada pode ser uma boa estratégia para evitarmos guerras e conflitos ou até o arrefecimento das nossas amizades. A este propósito e como nos disse Victor Hugo, “as palavras têm a leveza do vento e a força das tempestades.” Nesta perspectiva, se seguirmos pela vereda da leveza das palavras com destino ao silêncio evitamos problemas, desentendimentos e apreciações negativas em relação à nossa opinião, à nossa postura ou conduta. O exercício da palavra e do silêncio fazem parte de nós. Podemos utilizá-los com equilíbrio e moderação. As palavras constroem-nos e exprimem a nossa essência aos outros. São o nosso cartão-de-visita e também o melhor instrumento do diálogo. Se deixarmos de as usar também deixaremos de ser nós para nos transformarmos noutra coisa qualquer. Não podemos ter medo de soltar as palavras porque elas são a melhor expressão de nós. São a nossa verdade. Há muitas formas de dizermos as coisas aos outros. Podemos ser assertivos sem ferir, sem magoar. Podemos soltar palavras duras como manifestação da nossa autenticidade e da nossa forma genuína de gastarmos o tempo que temos à nossa disposição. Mas, como sabemos, essa atitude nem sempre cai bem. Nem sempre encontra acolhimento nos nossos interlocutores. No entanto, se acreditarmos em nós, na força das nossas convicções e na determinação das nossas palavras devemos usá-las da melhor forma possível para dizermos sempre quem somos e o que procuramos, sem artifícios ou dissimulações. Devemos esgotar-nos na nossa verdade e na genuinidade das nossas convicções tendo sempre em perspectiva o diálogo que, na palavra de Carlos Drummond de Andrade, é dizermos “o que pensamos e suportar o que os outros pensam.” Se assim fizermos teremos sempre espaço e tempo para os nossos silêncios, para a nossa reflexão interior e para a nossa quietude. E também para a compreensão dos outros neste esforço comunicacional que tem sempre dois sentidos. Se assim fizermos e usarmos a palavra com moderação e equilíbrio seremos sempre autênticos e genuínos na procura da comunicação da verdade. E se nos apresentarmos assim convocaremos a nossa confiança e também a dos nossos interlocutores mesmo que, no meio da narrativa e percurso de vida, formos colecionando inimigos apenas por dizermos o que pensamos. Se assim fizermos estaremos nos antípodas da hipocrisia e a construir, na nossa escala e dimensão, um mundo, pelo menos, mais verdadeiro. Mesmo que, aparentemente, os resultados imediatos não sejam encorajadores. Afinal, todos sabemos que a vida é uma grande maratona e não uma corrida disputada ao sprint.