Domingo, 8 de diciembre de 2019

Entre a carne e o ferro

“Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro.”

Sigmund Freud

Somos feitos de carne. Somos feitos de carne, osso e sangue. Essa é a grande matéria que nos constitui. Não somos feitos de outra coisa. Não somos de ferro, nem feitos de matérias duras e inquebrantáveis. Somos feitos de matérias absolutamente humanas, finitas e repletas de fragilidades. A carne é mortal. É frágil. Perece às circunstâncias do caminho, da viagem e dos ventos que sopram sobre a nossa condição. Inspiro-me, a este propósito, na célebre frase atribuída a Sigmund Freud: “Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro.” É um ponto de partida interessante para pensarmos nas vezes em que temos que nos tornar mais fortes do que somos para, entre muitas outras coisas, enfrentarmos as maiores adversidades que vamos encontrando por aí, entre vales e montanhas. Às vezes a nossa carne, no meio de toda a sua fragilidade, tem que caminhar como se fosse de ferro inquebrantável. A narrativa popular costuma dizer, com razão, que o que não nos mata nos torna mais fortes. São as experiências da vida, principalmente as más, que vão construindo uma carapaça forte e dura que envolve a nossa carne, protegendo-a das intempéries de todas as desilusões. A frustração, a derrota e o desalento são lições em permanência. Ensinam mais do que as vitórias. As águas agitadas colocam-nos à prova. Os rios que correm lentamente adormecem-nos a afogam-nos na agonia da lentidão. É nestes contrastes que muitas vezes temos que parecer o que não somos para nos constituirmos no que precisamos de ser em cada momento. Uma coisa é o que é e outra o que parece que é. Sim, somos feitos de carne e às vezes temos que viver como se fôssemos de ferro. Temos que colocar todas as armaduras para enfrentarmos os ventos que vêm contra nós. Nesses desafios que a substância do tempo sempre nos traz seremos sempre de carne mas feitos de ferro. E é como o ferro que não somos que perfuramos todas as montanhas que pretendemos ultrapassar. A vida é dura, sobretudo para quem é mole como uma vez li num azulejo azul, colocado numa parede, qual santuário da sabedoria popular. O ferro marca a carne. E a carne sucumbe ao ferro. Este metal assume quase sempre a sua condição bélica para armar todas as posturas de ataque. Porém, o ferro não implica necessariamente combate, nomeadamente neste sentido metafórico em que tantas vezes temos que mergulhar e quase sempre de forma involuntária. Aqueles que vivem como se fossem de ferro não estão sempre ao ataque, antes pelo contrário. Enquadram as suas fúrias dentro da sua armadura, não explodem a mínimo sinal de frustração. São ponderados e tolerantes. Às vezes dilaceram-se por dentro para não agredirem. Pagam naturalmente um preço elevado pela sua humana condição que se metamorfoseia em ferro quando as circunstâncias assim o exigem. Os que são feitos de carne e vivem como se fôssem de ferro também caem e aqui e ali cedem ao cansaço. Mas são autênticas fortalezes. Precisamos delas. Precisamos de nos agarrar a elas, principalmente quando nos encontramos mais frágeis e cercados por todas as nossas angústias e incertezas. As fortalezas de ferro feitas de carne por dentro não deixam de nos inspirar pelo seu estoicismo e pela sua bravura. Neste balanço da caminhada umas vezes é a carne que se impõe e outras é o ferro. E, às vezes, tem que ser mesmo o sentido bélico da armadura a marcar o ritmo da viagem na medida em que tudo o que se alcança é, como se costuma dizer, arrancado a ferros. Porém, e não nos podemos esquecer disso, é carne que nos dá a dimensão humana. E é carne que desarma o ferro sempre que decide trabalhar por dentro da armadura, lançando chamas de amor que vêm do coração.