Domingo, 8 de diciembre de 2019

Aleluia, aleluia! Rejubilemos!

O sol que hoje abraça o horizonte transmite-nos paz e alegria. Cumpre-se o ciclo da tradição de religiosidade profunda e também da natureza. Passaram os quarenta dias em que percorremos as veredas da nossa interioridade. No tempo da quaresma fomos convocados para esse diálogo interno e para a comunhão das coisas simples, das privações, do sacrifício e da caminhada das pedras à procura de nós. Na semana santa revivemos a paixão de Jesus Cristo e acompanhámo-lo na “via-sacra” e também no seu funeral. Revivemos um tempo milenar. Encontrámo-nos com a família e os amigos, sobretudo à volta da mesa. Cada um de nós vive este tempo à sua maneira e de acordo com as suas possibilidades e convicções. E cada um de nós revive cada momento simbólico de forma muito particular. É coração que marca o passo da nossa peregrinação. Apesar de estarmos juntos e de rejubilarmos com as tradições de um tempo longo e carregado de mistério e revelação, não deixamos de interpretar o sofrimento de Jesus na sua cruz e no seu calvário. Enchemo-nos de compaixão com a dor de Maria que perde o seu filho após longo sofrimento e agonia. Os martírios que ecoam pelas ruas e templos dos nossos itinerários do sentir traduzem esse sentimento profundo por palavras repletas de uma extraordinária musicalidade da dor e do sofrimento: “homens que passais no caminho, olhai e vede que não há dor igual à minha dor.” Este é o tempo de todos, dos que acreditam dos que não acreditam. A história tem o seu percurso. E a fé não explica, sente-se e vive-se na dimensão de cada um. Não há julgamentos nem pilatos que lavem as mãos. A cada um o seu credo, o seu acreditar individual na luz que ilumina o caminho. E em comunhão, no seio da nossa comunidade, revivemos e amplificamos esta força interior como se pedíssemos uma redenção colectiva para nós e para o nosso território. A tradição cumpre-se e as imagens vivificam-se em nós. O madeiro da cruz continuará o seu propósito ancestral. A mensagem continuará a passar de geração em geração e o tocar o coração dos homens que por ela se deixam tocar. Neste período de religiosidade densa e profunda retive com particular acolhimento as palavras ditas no calvário nos minutos que precederam a procissão do enterro do Senhor que teve lugar na cidade do Fundão (Portugal), como manda a tradição de um tempo também ele longo. No meio da escuridão e do silêncio a comunidade esperava pelas palavras de compaixão que ajudassem a interpretar o manto negro do sentir que nos abraçava a todos. As palavras também são pão e alimento para o caminho. Do alto do calvário ecoa na multidão a história de José de Arimateia, homem rico e influente, membro do sinédrio e próximo de pilatos. Simpatizava com as ideias de Jesus, aconselhava-se com ele, escutava-o. Era uma espécie de discípulo secreto. Mas não dava a cara por ele. Tinha medo de perder os seus negócios, a sua influência e o seu poder. Acreditava nele mas não o podia salvar. Na verdade, tentou fazê-lo, no meio das suas múltiplas hesitações. Tentou dar um passo em frente. Mas não conseguiu porque o conforto da sua situação falou mais alto. Foi para casa revoltado com a sua própria atitude e com a sua falta de coragem. Nessa noite os sonhos foram reveladores. Afinal tudo estava consumado e tudo tinha acontecido conforme as escrituras. José de Arimateia teve a sua redenção e um papel determinante (junto com Nicodemos) para que o corpo de Jesus tivesse um tratamento digno na hora do seu tempo final junto dos homens. Pilatos autorizou que José de Arimateia levasse o corpo de Jesus para um local de repouso digno. O poderoso homem de negócios, o discípulo secreto de Jesus, pagou o seu preço. Mas redimiu-se. Reencontrou-se com a sua coragem e com as suas convicções. E nós? Sim, e nós, quantas vezes não fazemos como José de Arimateia? Quantas vezes nos falta a coragem para defendermos as nossas convicções apenas porque não queremos perder o conforto que julgamos ter? Quantas vezes negamos tudo em que verdadeiramente acreditamos para seguirmos a corrente do situacionismo da pós-verdade? Quantas vezes colocamos um pé fora da nossa zona de conforto para fazermos o que devemos fazer? Enfim, quantas vezes deixamos de ser nós para sermos tudo e nada ao mesmo tempo? As palavras do calvário agitam os nossos corações e fazem-nos reflectir sobre o nosso caminho e o nosso propósito de vida. No meio do silêncio e da escuridão fez-se luz e tudo ganhou mais sentido. Agora, depois dos itinerários do sentir é tempo de celebrarmos. Aleluia, aleluia! Rejubilemos com todos os que connosco partilham o pão e o caminho.