Domingo, 18 de agosto de 2019

A comunicação dos monólogos e a queda dos seres balbuciantes

Saber ouvir é uma grande virtude. Escutar os outros é um sinal de respeito e a manifestação da vontade de comunicar. É valorizar o outro! Há quem prefira os monólogos disfarçados de diálogos à existência de uma boa comunicação. Há quem deseje apenas ouvir o eco das suas palavras e acolher a voz de quem balbucie concordâncias às suas narcísicas narrativas. Há gente assim. Gente que sabe tudo e de tudo. Por isso, a opinião dos outros não interessa. Os outros fazem falta apenas na sua qualidade de espectadores balbuciantes. Há gente que não se escuta e muito menos consegue escutar os outros. É também por isso que há diálogos que não existem. No nosso caminho vamos encontrando diversos artistas dos monólogos e também imensos balbuciantes que apenas grunhem coisas aos sinais de assentimento do chefe. Há quem goste de se ouvir e se delicie com os seus próprios monólogos por muito fraquinhos que sejam. Há quem esteja sempre disposto a representar espécies de diálogos apenas para agradar ao emissor, ao chefe. Os que a toda a hora abanam as cabeças em sinal de concordância são os discípulos perfeitos dessa arte maior designada por “lambe-cubismo” como lhe chamou Miguel Esteves Cardoso. Os que escutam por escutar sem ouvirem a mensagem que a comunicação pode trazer não se respeitam. Os que balbuciam coisas não se respeitam e não respeitam os outros. Uns estão bem para os outros. Toleram-se. Precisam uns dos outros para massajarem os seus egos e reafirmarem as suas obediências cegas. Uns e outros preenchem o espaço privado e público como cotão que dá volume a uma almofada. Existem. Sim, não os podemos ignorar. Mas, podemos contorná-los promovendo o diálogo, o exercício do contraditório e as conversas saudáveis onde ninguém é dono da verdade. A comunicação é um instrumento de grande aprendizagem. Mas para que isso aconteça é preciso que, pelo menos, dois interlocutores se respeitem e se deixem ouvir e embalar pela troca de palavras repletas de conteúdo como se de uma dança se tratasse. A conversa é, sem dúvida, um verdadeiro acto de prazer. E o prazer acontece quando dois interlocutores estão disponíveis para promoverem os caminhos da simplicidade e do respeito mútuo. Escutar o que o outro diz é uma manifestação sábia de quem sabe abrir as portas interiores. É um exercício de contenção e, ao mesmo tempo, uma janela aberta ao conhecimento e ao coração. Quem escuta aprende. Quem espera pelas frases que terminam sabe responder de forma mais esclarecida e objectiva. Quem espera sabe que alcança a palavra e o seu significado mais profundo. Às vezes, precisamos de falar o que nos vai na alma. Para isso escolhemos um confidente, um amigo ou um familiar. Dizemos ao que vamos e esperamos pelo apoio às nossas inquietações. Muitas vezes, não vamos à procura de respostas para os nossos problemas. Pretendemos apenas despejar o que saco que está cheio. Aí falamos e sabemos que o outro nos escuta, com respeito e carinho. Depois disso, ficamos mais aliviados e a comunicação que acabámos de fazer em forma de monólogo consolidou amizades e reforçou laços familiares. Sendo esse monólogo uma terapia informal é aceite e replicada entre os seus interlocutores que, de vez em quando, precisam recorrer a este expediente para continuarem a viagem. Outra coisa bem distinta são esses balbuciantes que falam sem dizerem nada. São esses promíscuos das palavras vazias que contam entre as claques forçadas os seus apoiantes e dependentes mais fiéis. As palavras ocas e as vidas sem sentido cruzam-se amiúde na construção de monólogos que não levam a lado nenhum. Apenas servem para exaltar os balbuciantes que vivem por aí, os chefes dessas tribos de lambe-cús que não têm um pensamento, uma ideia, uma atitude. Esses esperam, pacientemente, pelas migalhas que o chefe lhes dá a troco de estarem ali especados a abanarem a cabeça à medida que o balbuciante-mor lhes grita aos ouvidos frases bacocas e auto-elogios. Por incrível que pareça alguns destes tolos sobem os patamares do estrelato até grandes alturas porque há sempre quem prefira seguir as tendências do que nadar contra a corrente das ideias vazias e sem significado. Porém, a grande lição que a vida nos dá é que as asas desses que voam alto também se derretem, justamente, à medida que se aproximam do sol. Aí, nesse ponto de conexão com o limite dos limites, caem com grande estrondo no chão, mergulhando depois num silêncio ensurdecedor que se espalha pelo imenso cemitério do lambe-cubismo e dos balbuciantes que lhes traçaram o destino.