Miércoles, 21 de agosto de 2019

O medo da escuridão

Escuto uma e outra vez o tema “fear of the dark” da conhecida banda de heavy metal Iron Maiden e deixo-me embalar no ritmo da multidão que sente o medo do escuro e procura a luz. Todos temos os nossos medos. Todos temos medo da escuridão. Num ou noutro dia todos acabamos por caminhar sozinhos, sentir que algo se move atrás de nós, sem termos coragem para voltarmos a cabeça no sentido das imagens que julgamos perturbadoras. O medo toma conta de nós. Paralisa-nos. Temos medo dos ruídos que ecoam na escuridão e das tonalidades negras que se movem lentamente. Julgamos imaginar coisas. Algumas delas, a maioria, não existem. Estão apenas na nossa cabeça. Mas não temos coragem para as enfrentar. Não conseguimos olhar para trás. As nossas mãos procuram interruptores que nos liguem à luz. Procuramos portas e janelas que nos abram horizontes de claridade e mãos que nos puxem dali, daquele inferno em que, acidentalmente, mergulhámos. Fechamos os olhos. Não queremos ver o que está para além de um limite que julgamos de segurança. Lembramo-nos dos nossos medos de criança, das zonas escuras e de todas as invenções dos nossos imaginários. Entretanto crescemos, desmistificámos muitas coisas, enfrentámos desafios e resolvemos mil e um problemas. A nossa carapaça fortaleceu-se. Estamos mais fortes! Crescemos. Caímos e levantámo-nos tantas vezes. Já conseguimos andar no escuro apesar de procurarmos sempre a luz. Não deixamos de ter medo. Ele está sempre presente. E pelo sobrolho ainda vislumbramos aqui e acolá as sombras que se movem ao nosso redor. Serão seres fantasmagóricos que nos querem fazer mal ou são ainda, apesar de tudo, os frutos da nossa fértil imaginação? Não sabemos. Julgo que não saberemos nunca. Mas, estamos mais fortes. Caminhamos no escuro. Sozinhos ou acompanhados. O medo continua lá. Mas também temos mais coragem e mais segurança em nós. Podemos caminhar no parque, à noite, como nos diz este magnífico tema dos Iron Maiden, mas, apesar do medo, seguimos com os nossos propósitos. Continuamos com medo, porém a coragem de fazer dá-nos outra segurança de nós. Não ficamos paralisados. Seguimos em frente, apesar do medo que persiste. A escuridão convoca a nossa prudência e maximiza os nossos sentidos. Às vezes, o caminho que vislumbramos com uma luz intensa pode tornar-se mais perigoso que uma estrada sem luz. Com claridade no caminho baixamos a guarda. Sem a nossa visão clara do que está à nossa frente redobramos os cuidados. Escutamos os nossos sentidos e também o pulsar do nosso coração. A nossa visão, limitada pelo ambiente, expande-se até ao máximo das suas capacidades e os outros sentidos ganham novas extensões. Metamorfoseamo-nos na nossa humana adaptação ao meio em que nos encontramos. O escuro é total mas conseguimos ver. Caminhamos com segurança e prudência. Sabemos que não podemos ter deslizes. Um erro pode ser fatal. Concentramo-nos no que estamos a fazer. Não nos esquecemos que temos medo do escuro e que respeitamos essa condição. Essa é a melhor maneira de nos adaptarmos ao ambiente que, por uma determinada razão, atravessamos. Entretanto, a luz, ainda que ténue, vai surgindo no caminho. Os passos que demos em segurança levaram-nos à saída. Isso significa que a nossa jornada vai continuar. Mas, enquanto caminhamos não nos devemos esquecer da lição que, entretanto, aprendemos. A luz dá-nos tranquilidade e agora a escuridão é mas reconfortante. Continuamos a ter medo do escuro e a caminhar sozinhos sempre que for necessário. Mas também escutamos com mais atenção esta melodia dos Iron Maiden que nos embala de uma forma extraordinária.  Fear of the dark é uma música que, de vez em quando, devemos ouvir para, entre muitas outras coisas, não nos esquecermos que há sombras que vagueiam por aí, na verdade das coisas ou apenas na nossa cabeça.