Miércoles, 20 de febrero de 2019

Viver é uma peripécia

“Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter forme. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.”  Joaquim Pessoa

A nossa vida é uma coisa extraordinária. E quando a vivemos por inteiro e aproveitamos bem o tempo limitado que se encontra à nossa disposição conseguimos ouvir a nossa voz interior que nos convoca para a felicidade. Todos temos dias bons e dias maus. Às vezes as coisas correm bem e outras menos bem. Fazemos coisas acertadas e também imensos disparates. Somos humanos. Erramos e acertamos. Rimo-nos e choramos, vezes sem conta. Corremos de um lado para o outro entre o ânimo e o desânimo. Entre todas as coisas que condicionam o nosso caminho devemos procurar, acima de tudo, viver a nossa vida, com autenticidade, com todas as coisas boas e más que nos acontecem, sem desperdiçarmos o nosso tempo a viver a vida de outros e sem nos deixarmos amordaçar pelos dogmas que nos querem impor a toda a hora. Steve Jobs disse-nos, entre muitas outras coisas e grandes lições de humanismo, para não deixarmos “que o ruído das opiniões dos outros saia da tua própria voz interior. E, mais importante ainda, tem coragem de seguir o teu coração e a tua intuição. Estes já sabem, de alguma forma, aquilo em que tu, verdadeiramente, te vais tornar. Tudo o resto é secundário.” Ou seja, devemos ser autênticos mesmo que não sejamos os melhores segundo os padrões de um determinado contexto. Não podemos nem devemos estar permanentemente a alimentar processos comparativos, a olhar para o retrovisor e a contemplar-nos ao espelho com a esperança de sermos como os outros que vão ali mais à frente. O tempo, por ser tão limitado, não pode ser desperdiçado com quem não gosta da sua pele e se deixa levar pela voracidade de todas as tendências procurando viver vidas que não são suas mas que lhe parecem bem. O caminho da autenticidade é seguramente o mais difícil. Mas é também o mais delicioso na medida em que proporciona a descoberta de nós e um acompanhamento muito próximo de todas as nossas metamorfoses. Viver não é andar em linha recta. É uma “peripécia” como escreveu o poeta Joaquim Pessoa num texto extraordinário sobre a nossa viagem, reforçando que “viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter forme. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.” Sim, a vida é uma grande peripécia cumprida ao longo de um caminho feito de nós e das nossas coisas. É nesse trajecto que nos fundamos e nos moldamos. É aí, nesse destino que nós destinamos que damos as nossas cambalhotas e mergulhamos no prazer, nos sustos, nas alegrias e tristezas que pintam de mil cores - e também a preto e branco - o nosso horizonte visual. A vida que acontece é a nossa. Saibamos respeitá-la e dar-lhe cor, música, afectos, emoções e paixões. O caminho é o nosso. Somos nós que o fazemos. É nesse trajecto, nessa vereda da nossa intimidade, que navegamos com o coração. É nesse somatório de geografias da alma que guardamos tudo de bom e de mau que nos vai surgindo a cada passo que damos. Mexemo-nos! Fazemos coisas. Avançamos. Não ficamos à espera do que aconteça aos outros para nos colarmos às suas vidas e sermos apenas cópias, com pouca nitidez, das suas sombras. No nosso caminho há espaço para a contemplação. É apenas um espaço, necessário e útil. Mas vida não é para ser contemplada. É para ser vivida. Para ser vivida com intensidade. Volto a Joaquim Pessoa para concordar com ele, mais uma vez: a vida “exige reflexão. E exige soluções. A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.” Na verdade, nós sabemos que a vida é assim. Porém, acomodados nas nossas aparentes zonas de conforto deixamos de lado as inquietações porque ralações já existem muitas. Para nós é sempre mais fácil seguirmos no carreiro sem nos questionarmos muito e sem questionarmos os outros. A nossa sorte é existirem poetas, filósofos e pensadores que nos abanam quando nos deixamos abanar, para sermos nós, com todas as nossas circunstâncias, nessa peregrinação que se chama felicidade.