Domingo, 8 de diciembre de 2019

Elogio da Serenidade

“Dificilmente o homem complicado pode estar disposto à serenidade: vê intrigas, tramas e insídias por toda a parte, e consequentemente tanto é desconfiado em relação aos outros, quanto inseguro em relação a si.” Norberto Bobbio

Inspiro-me no “elogio à serenidade. E outros escritos morais”, do filósofo e político italiano Norberto Bobbio, para também elogiar a serenidade, uma “virtude fria” como lhe chamou este grande pensador do nosso tempo que, infelizmente, já partiu para as geografias da eternidade. Também como ele, gosto de pessoas serenas. Inspiram-nos confiança! Tranquilizam-nos! Ajudam-nos! Indicam-nos o caminho! Libertam-nos de amarras! Aliviam a nossa pressão e o peso que carregamos nos ombros. Ensinam-nos a ficarmos em paz, connosco e com os outros. A serenidade e a simplicidade andam de mãos dadas. Combatem a arrogância que prolifera nos dias que correm. Aqueles que têm a sorte de terem encontrado a serenidade antes do fim dos dias e do encerramento da grande jornada são afortunados. Mas não se exibem. Não procuram luzes nem se enchem de lantejoulas e néones! Remetem-se ao silêncio. São discretos. Deixam que os outros sejam como são. Mesmo que exibam a sua bravura, coragem, ousadia e, naturalmente, a sua arrogância, na qualidade de paixões quentes, por oposição à fria e fraca virtude da serenidade como designou Norberto Bobbio. A serenidade é como uma bússola no nosso caminho que, por sua vez, procura a orientação da tolerância e do respeito, por nós e pelos outros. Serenidade é também misericórdia e compaixão. É simplicidade! Também por isso o filósofo italiano referia que “dificilmente o homem complicado pode estar disposto à serenidade: vê intrigas, tramas e insídias por toda a parte, e consequentemente tanto é desconfiado em relação aos outros, quanto inseguro em relação a si.” No meu caminho encontrei gente assim, desconfiada e insegura, que, perante dúvidas e sendo reféns da vertigem do poder, destruíram tudo o que pudesse configurar uma sombra, mesmo que apenas morasse na sua imaginação! Com esta postura, destruíram futuros, individuais e colectivos, que podiam, se devidamente concertados, gerar paz, alegria, coesão e desenvolvimento. As pessoas agitadas e pouco seguras são perigosas. Para elas e para os outros. Provocam desequilíbrios e distúrbios. Semeiam tempestades nas viagens. Fazem-no por tudo e por nada. Têm medo da própria sombra. São absolutamente desconfiadas e infelizes. Por vezes, quando se abeiram do fim dos dias, alcançam uma serenidade surpreendente. Procuram fazer as pazes com todos os inimigos que construíram ao longo do caminho e da grande jornada. Poderão obter, com esse gesto nobre, perdão e redenção. Seguirão em paz para o outro lado, levados pelo homem da barca. Mas será demasiado tarde para alcançarem a felicidade que desperdiçaram com a sua louca agitação que alimentou, durante muito tempo, o jogo de sombras. A desconfiança matou-os, mantendo-os vivos como uma espécie de penitência. O espelho da verdade chegou demasiado tarde. Redimiram-se no fim dos dias. Apenas cheiraram a serenidade. Mas essa pequena vitória de nada lhes serve na medida em que estão prestes a alcançar a outra margem, o espaço da serenidade absoluta e intemporal. O grande desafio é sabermos dominar as nossas paixões e a nossa intranquilidade para alcançarmos, no tempo devido, a serenidade que nos conduza à felicidade a que todos temos direito. Esse exercício exige disciplina e confiança, em nós e nos outros, apesar de todos os nossos erros e das nossas humanas imperfeições. Não há um tempo certo para procurarmos - e alcançarmos - a serenidade devida. Temos que viver as nossas paixões e emoções, sentindo a corrente passar. Temos que beber do cálice de todas as agitações para sabermos dar valor à serenidade. Mas devemos alcançá-la mais cedo do que tarde para que a nossa felicidade e de todos os que nos acompanham na viagem não demore.