Miércoles, 21 de agosto de 2019

Num dia destes fazemos isso!

Ao longo da nossa caminhada fazemos muitas coisas e adiamos outras. Há coisas que têm que ser feitas no momento. Outras, devido a diversas circunstâncias, são adiadas para momentos mais oportunos e outras ainda para toda a eternidade. Quando somos jovens não pensamos nas coisas que desejamos fazer e não fazemos. Simplesmente, fazemos! A juventude também é isso! Nesse calendário não podemos fazer tudo. Não conseguimos fazer tudo. Não há tempo para tudo! Nesse instante juvenil fazemos o que podemos. Inconscientemente, vamos ao encontro do pensamento de Miguel Torga: “Quem faz o que pode, faz o que deve”. Também fazemos muita coisa que não devemos. Mas, as coisas que ficam por fazer são poucas. A vida tem intensidade. Os sonhos são sonhados depressa. Realizam-se depressa e vão-se num tempo fugaz. Entretanto, vamos amadurecendo. O tempo e o caminho vão-nos moldando. Recua a jovialidade e avança a racionalidade. Muitas coisas perdem piada. E outras que não a tinham ganham amplitudes de prazer e alegria. Porém, o tempo que avança sem piedade vai-nos ensinando que a vida é curta. E se não nos lembramos desse ensinamento as pessoas que se cruzam connosco e o próprio fruir da vida vão-nos recordando que o nosso tempo é curto, demasiado finito … e também voa num instante para as geografias do pó. É precisamente por isso que não devemos adiar as coisas de que gostamos nem procrastinar sobre tudo o que nos dá prazer. Estamos sempre a desenhar desculpas para não fazermos uma viagem, não escrevermos um livro ou visitarmos um amigo que mora longe. Dizemos sempre que nos falta o tempo para o que a rotina reclama e que não há dinheiro para isto e para aquilo. Estamos focados no que a vida e os outros nos exigem. Desfocamo-nos de nós, do que nos dá prazer e do que, verdadeiramente, queremos e desejamos fazer. Negamo-nos! Fechamo-nos em caixas, em compartimentos. Não nos libertamos. Não deixamos que a fantasia nos inspire no caminho. Ficamos presos à terra. Não nos mexemos. Não vamos à procura da concretização dos nossos sonhos. Não dizemos o que devemos dizer. Não abraçamos quem devemos abraçar. Não amamos quem devemos amar! O tempo passa demasiado depressa e mesmo assim permanecemos adormecidos. De vez em quando acordamos ao som do toque de um telefone e ouvimos do outro lado uma voz que nos dá conta que um amigo partiu! Caramba! Prometi que o visitava e nunca lá fui! Caramba, disse-lhe que nos juntávamos num destes natais, mas isso nunca se proporcionou! Nesses instantes arrependemo-nos do que não fizemos, das palavras que não dissemos… das gargalhadas e dos abraços que não demos! Quando a viagem chega ao fim para os que estão à nossa volta, lembramo-nos das coisas que prometemos e não fizemos. Um dia chegará a nossa vez e outros farão e pensarão o mesmo. Um dia … será demasiado tarde! Temos que inverter o rumo dos afectos adiados. Temos que abrir a caixa da felicidade para vivermos a vida que há para viver e para concretizarmos todos os sonhos que devem ser sonhados. Recordo o grande jornalista e escritor Manuel António Pina e as suas - “lembranças que não me lembro, sítios que não sei, invenções que não invento, gente de vidro e de vento, países por achar, paisagens, plantas, jardins de ar, tudo o que eu nem posso imaginar porque se o imaginasse já existia embora num sítio onde só eu ia…”. Todos os tempos são bons para fazermos coisas! Mas quando percebemos que à nossa frente o tempo não cresce …devemos ser mais exigentes com a nossa felicidade, dizendo o que há por dizer e fazendo o que há para fazer!