Domingo, 8 de diciembre de 2019

Cartas e fotografias: pedaços de memória e identidade

Olho para uma fotografia a preto e branco. Mergulho nela e faço uma viagem ao passado. O instante guardou a memória de dois adultos que seguram uma criança pela mão. Estão contentes e genuinamente felizes. A fotografia é uma memória que resistiu e resistirá ao tempo. Está gravada num pedaço de papel que permanece. Faz parte da história de uma família, da minha. É um pedaço de memória e de identidade. A criança já não existe, entretanto tornou-se adulta. E os adultos que outrora a seguravam pela mão já partiram. Estão longe mas parto do coração, sempre. O momento da fotografia é irrepetível. Mas ela aí está, resistente e a desafiar o tempo do passado para que nunca me esqueça dos que me fizeram bem e também dos que promoveram sempre a minha felicidade. A fotografia é a preto e branco mas sempre que olho para ela enche-me a alma de mil cores. Esta memória é também a minha identidade. Esta imagem é parte do meu caminho. Por isso a guardo como se de um tesouro se tratasse. Sou daqueles que guardo coisas. Às vezes são coisas sem importância mas que representam um tempo, um momento ou um lugar de afectos e, sobretudo, boas memórias. São símbolos de um caminho andado, das pessoas que fui encontrando e dos lugares que fui conhecendo. São pedaços em que me fundei em todos os lugares onde morri e renasci. De vez em quando gosto de revisitar essas memórias que moram nas fotografias e nas coisas que estão escritas, nas cartas e noutros textos. Mário Vargas Llosa disse-nos que “a memória é uma armadilha, pura e simples, que altera, e subtilmente reorganiza o passado, por forma a encaixar-se no presente.” Precisamos da memória e das referências que nos conduzem a ela para reorganizarmos os nossos tempos. Sem memória não somos nada. Sem ela não temos identidade. Precisamos da memória para contarmos com “a consciência inserida no tempo” como referia Fernando Pessoa. Quando guardo coisas penso sempre na reorganização dos tempos e dos espaços em que me fundei. Os textos e as fotografias são peças de um puzzle interminável que vai tecendo um painel de vida que também precisa de sentido e de alimento com todas as referências que guardo com absoluta devoção. Os tempos de hoje tornam essa tarefa mais difícil, fundamentalmente por causa da volatilidade do tempo que a internet, as redes sociais e as plataformas electrónicas fomentam. Registamos tudo a todo o instante. Exibimos a nossa privacidade nas redes sociais e partilhamos tudo o que fazemos. Mas não guardamos nada. Atiramos tudo para o buraco negro da era digital. Já não imprimimos e emolduramos fotografias. Já não guardamos as cartas que escrevemos e muito menos as que não escrevemos. Fica tudo na nuvem, no espaço desregulado de ninguém, sem privacidade e em completa nudez. Não renovamos os santuários da nossa intimidade. Não resguardamos as memórias de um tempo. Um dia quando quisermos olhar para trás e tentarmos encontrar o fio à meada da nossa vida temos que introduzir palavras-chave para localizarmos alguns fragmentos do que um dia foi nosso. Dificilmente encontraremos os pedaços originais do que um dia fomos. As cartas que nunca escrevemos não poderão ser encontradas. Os textos que soltámos ao vento estarão desfeitos e adulterados por tantas cópias partilhadas e completamente espartilhadas do seu sentido original. Se tivermos sorte encontraremos apenas cacos no caminho que a muito custo juntaremos para conseguirmos no limite uma sombra ou uma leve representação de nós e dos que um dia nos rodearam. Dizem-me que o que colocamos na internet fica lá para sempre. Talvez tenham razão. Para já a única coisa que constato é o desaparecimento da fotografia e do texto livre, repleto de afectos e emoções, como fiéis representantes da nossa memória e identidade. Este é um tempo de perda. É preciso resgatá-lo.