Domingo, 18 de agosto de 2019

A vida entre a lagarta e a borboleta.

Sempre gostei de borboletas. Elas são livres, leves e soltas! São um exemplo extraordinário da metamorfose e um magnífico ponto de partida para todas as metáforas! São o símbolo da transformação, da felicidade, da inconstância e de tudo o que é efémero. As borboletas são a expressão de um dos grandes espectáculos que a natureza nos proporciona e a melhor imagem da renovação. Gosto em particular das suas cores e da leveza e elegância do seu caminhar pelos ares. A metamorfose das borboletas é um momento mágico, um símbolo de ressurreição. A lagarta e a borboleta são apenas um ser que apesar de insecto nos transmite uma simbologia sem paralelo em relação aos ciclos da existência: vida, morte e ressurreição! Devíamos olhar mais para as borboletas, observar melhor o esplendor do seu planar sobre o espaço e o tempo para também nos percebermos melhor. Deixando de lado a interessante questão da ressurreição para outros arrazoados foco-me na transformação da crisálida em borboleta para estabelecer uma comparação simples com a nossa vida. Nós também somos crisálidas, abandonamos o casulo, ganhamos asas, voamos e transformamo-nos muitas vezes ao longo da nossa vida. Nem sempre compreendemos bem esses processos. Nem sempre nos damos conta deles. Mas, na verdade, eles acontecem e marcam a nossa viagem. No envolvimento com a natureza e no sentido simbólico mais profundo a nossa relação com as borboletas é íntima e clara como um reflexo de um espelho. O que acontece na vida de uma borboleta é muito parecido com o que acontece connosco. E a metamorfose é sempre uma grande lição! Tudo tem um tempo próprio. Nem sempre aceitamos isso. Por vezes, queremos sair do casulo quando ainda não estamos prontos para voar. Mas a nossa ansiedade fala mais alto. Queremos sair rápido dali, daquele lugar escuro. Desejamos a luz mas não estamos verdadeiramente preparados para a receber. A borboleta só sai no tempo próprio. Quando se metamorfoseia. Quando está pronta para voar. Quando assim não acontece as coisas não correm bem, nem às borboletas nem a nós! A lagarta tem que deixar de o ser para se transformar em borboleta. Mas para isso ela precisa de se libertar do que era antes. Tem que morrer para renascer noutro corpo com capacidade de voar. É um processo muito parecido com a nossa transformação interior. Para crescermos precisamos de deixar coisas para trás e de nos lançarmos para o espaço que não conhecemos. Temos que arriscar voar no tempo certo, mesmo que não conheçamos bem os horizontes. Se a lagarta pensasse muito no que acontece durante o seu processo de transformação talvez preferisse o conforto e a segurança do seu casulo. Ali naquele lugar sagrado as vistas são curtas, mas o invólucro é quente e seguro. Às vezes, precisamos de sair do conforto em que nos instalamos para nos lançarmos na aventura da nossa transformação. Caso contrário nunca sairemos do casulo. Nunca estaremos prontos e, sobretudo, nunca chegará a hora de voarmos para onde quisermos. Apesar da beleza do voo e das fantásticas cores das asas, o casulo é sempre sedutor, o das borboletas e o nosso. Mas é preciso arriscar! No caso das lagartas o processo é conduzido por iniciativa da natureza através do seu processo de renovação. No nosso caso a iniciativa pertence-nos. É uma escolha! Muitas vezes pensamos em fazer isto e aquilo e não fazemos, quase sempre por medo de alguma coisa. Se a iniciativa é nossa temos que fazer! E fazer é sair do casulo, da zona de conforto e de segurança. É arriscar e não desistir! Precisamos de coragem para fazer! E de mais coragem ainda quando nos sentirmos a desmembrar, a mudar e a transformar no meio do processo em que todos os medos nos batem à porta! É aí que temos que ser determinantes mesmo sem sabermos o que vai acontecer a seguir. Por isso, devemos inspirar-nos nas borboletas para fazermos por nós. Para nos mudarmos por dentro antes que seja tarde. Fazer é ir e libertar o coração. O resto vem, no tempo certo, como consequência da nossa coragem. A isso chama-se felicidade!