Martes, 18 de septiembre de 2018

Beija-me com palavras ou diz-me tudo em silêncio.

O grande Victor Hugo disse-nos que “as palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade”. Por isso, devemos cuidar bem delas, digo eu. As palavras que saem da nossa boca devem ser escritas com o coração. Se quisermos fazer bem aos que nos estão próximos ou amar intensamente devemos abusar delas e deixá-las correr pelo rio da felicidade. As palavras doces, de elogio ou de exaltação enchem-nos a alma. Alimentam o nosso ego. Fazem-nos bem. Estimulam-nos. Devemos utilizá-las mais vezes para enchermos o caminho de luz. Podemos amar com palavras construindo com elas um altar de preliminares, sussurrando-as ao ouvido para anteciparmos a convocação de todos os prazeres da carne e do espírito. Se as soltarmos no meio dos nossos sentidos elas provocarão prazer e prepararão o caminho para um prazer maior, mais intenso, mais vivido. Elas funcionam como antecâmaras de imagens que desejamos viver com ardor e paixão. As palavras são loucas de prazer e também sabem beijar. Elas beijam antes do beijo. Preparam o beijo para o tornar mais doce e depois vão por aí adiante até aos confins dos limites do prazer. As palavras têm um poder extraordinário. Amam como ninguém. Voam e pairam suavemente em todas as brisas que sopram no nosso rosto. Elas excitam-nos e fazem excitar. Mexem com as nossas entranhas inundando-as com expectativas e múltiplas sensações. Convocam todas as borboletas para o nosso estômago. Fazem-nos felizes. Por isso e por muitos mares de palavras que não cabem no baú que este texto comporta, não devemos deixar de dizer palavras doces e estimulantes a quem gosta de nós e a todos os que connosco partilham a mesma viagem. A vida torna-se mais leve se soltarmos palavras de amar e de construir. E se não soubermos beijar com palavras devemos dizer o que nos vai na alma com o nosso silêncio. Podemos dizer muita coisa com a quietude, acompanhados do silêncio de todas as sabedorias. A palavra deve ser usada para amar e edificar. Nunca para ferir, matar ou chamar tempestades. Nem sempre conseguimos esse equilíbrio nas nossas vidas. Somos tantas vezes levados pela ira e pela raiva. Soltamos palavras duras que ferem. Atiramos palavras cortantes em direcção aos outros como se fossem pedras que matam. Nem sempre temos consciência disso! Estamos demasiado focados em nós e na libertação dos nossos medos, raivas e ansiedades que nem sequer percebemos a força das palavras que atiramos pela borda fora! Magoamos tantas vezes. Ferimos e ferimo-nos. Os tempos vertiginosos em que nos movimentamos todos os dias deixam pouca margem para que a reflexão sobre estas coisas aconteça. A nossa dimensão humana faz-nos viver à flor da pele reagindo sempre em conformidade com as circunstâncias. Por outro lado, não temos a verdadeira noção da força das palavras que são ditas nem do efeito que elas provocam em nós e nos outros, no bem e no mal que fazem. Devemos, por isso, ter mais consciência de nós e dos outros e, sobretudo, do peso das palavras. Não nos podemos tornar mecanicistas ou apurar instrumentos de autocensura. Mas devemos aprender a medi-las antes de as soltarmos e também a dizer mais coisas em silêncio. Sim, o silêncio também fala e é um espelho da sabedoria. Temos que ser mais vigilantes das palavras que emitimos se quisermos ferir menos e construir mais. O equilíbrio das palavras está ao nosso alcance. Saibamos procurá-lo junto ao coração. Aí podemos aprender a beijar com palavras sussurrando coisas belas ao ouvido de quem gostamos. As outras palavras, as que ferem e matam, devem ficar no baú de todas as raivas para que não ganhem asas e assumam o poderoso efeito boomerang. Deixemo-las lá, bem no fundo, para que se acalmem. Deixemos falar o coração com palavras que beijem ou então faremos tudo em silêncio para que o caminho seja feito de amor.