Lunes, 9 de diciembre de 2019

A vida entre ver e olhar.

“Aprender a pensar é descobrir o olhar”. Marcia Tiburi 

Ao longo do dia vemos e olhamos para muitas coisas, para as pessoas que se cruzam connosco e para os lugares que frequentamos. A vida é um caminho entre ver e olhar. Parece que vemos e olhamos sempre na mesma estrada. Mas, na verdade, percorremos direcções muito diferentes quando vemos e olhamos. Ver é quase um acto mecânico decorrente da nossa visão. Vemos o que está à nossa frente e o que a nossa vista alcança. Ver representa o imediatismo das coisas, das pessoas e dos lugares. É um acto frio e uma habilidade fisiológica da nossa visão. O olhar é uma coisa diferente. Mexe connosco. Obriga-nos a interiorizar e a interpretar. Exige a nossa concentração e eleva-nos o pensamento. O olhar para além do simples acto de ver estimula os nossos sentimentos e agita o nosso coração. O acto de olhar nunca é uma acção simples. Exige muito de nós. Obriga-nos a pensar e a reagir sobre uma multiplicidade de factores que o nosso olhar contemplativo capta de forma lenta e intensa. Na maioria das vezes preferimos ver a olhar. Dizemos para nós que não temos tempo para grandes cogitações. Vemos o que vemos e pronto. Seguimos com a nossa rotina diária recorrendo a tudo o que fazemos de forma mecânica. Ficamos mais tranquilos para seguirmos a jornada que está inscrita no horizonte. O acto de olhar dá mais trabalho e não estamos para isso. Olhar pode perturbar a nossa mente. Pode provocar inquietação e convocar todas as angústias de que desejamos fugir a sete pés! Se nos dispusermos apenas a ver o que está diante dos nossos olhos não precisamos de nos preocupar com as coisas que estão para além do que os nossos olhos vêem! A este propósito a filósofa brasileira Marcia Tiburi diz-nos que “aprender a pensar é descobrir o olhar”. Por isso, precisamos de reaprender a olhar e a usar o tempo mais devagar, deixando que a nossa visão possa olhar para além do ver. Sim, se olharmos com atenção para tudo o que nos rodeia, aprendemos a pensar e a descortinar as coisas que estão por trás da cortina. O olhar desnuda tudo, desvenda e revela. Abre portas para que a luz ilumine o caminho. Todos temos dificuldade em estimular o acto de olhar. Estamos demasiado agarrados às coisas que fazemos com pressa, sem sabermos muito bem porquê e para quê. O facto de dizermos que não temos tempo para olhar é uma medida instintiva de protecção em relação ao nosso próprio pensamento. Às vezes não queremos pensar muito nas coisas. Na maioria das vezes não pensamos nas coisas porque não estamos a olhar, estamos apenas a ver e a seguir em frente com a nossa vida. Podemos apenas nascer e morrer a ver as coisas. Isso não está certo nem está errado. É apenas uma opção. Mas, se nos dispusermos a olhar temos a certeza que a angústia baterá à nossa porta, e também a alegria e a intensidade das coisas que estão para além da cortina. Não sei se olhando devagar para as coisas, para as pessoas e para os lugares, seremos mais felizes. Sei apenas que teremos uma vida mais intensa e, provavelmente, mais interessante. Se assim fizermos, num dia estaremos no topo da montanha e no outro mergulharemos no vale, sabendo também que o cosmos estará sempre alinhado em cima e em baixo como o sol que brilha, sempre que pode, no cimo e na base da montanha.