Miércoles, 21 de agosto de 2019

O caminho da reciprocidade

A reciprocidade é uma palavra repleta de significado que nos devia encher a alma todos os dias. Infelizmente, sabemos que não é assim. Nem sempre a reciprocidade acontece. O tempo e o espaço das nossas vidas são construídos com base nas relações que temos com os outros. Os outros completam-nos e nós completamos os outros. Naturalmente, há quem seja mais social e quem prefira mais a sua própria companhia. Na espuma dos dias que correm observamos uma tendência para o individualismo como consequência da competitividade desenfreada em que todos mergulhámos. Temos que ser melhores que os outros. Temos que chegar primeiro. Temos que ter mais! E para quê? Sim, qual a necessidade de sermos melhores que os outros, de chegarmos primeiro que os outros e de termos mais que os outros? A vida deve correr no tempo próprio e em conformidade com as consequências naturais dos nossos actos. Devemos fazer sempre o melhor que podemos e sabemos mas em caso algum nos podemos esquecer de viver uma vida que, afinal de contas, passa num instante. Nós precisamos dos outros e outros precisam de nós. É também por isso que o caminho da reciprocidade é tão importante para alcançarmos a felicidade. Ninguém que esteja sozinho alcança a reciprocidade. Ela implica pelo menos duas pessoas. E a uma acção positiva devemos fazer corresponder uma outra acção positiva. Também não devemos fazer nada à espera de termos algo em troca. Isso não é reciprocidade é estratégia e interesse. Mas também não nos podemos demorar onde não nos querem e onde a reciprocidade não acontece. O equilíbrio, o caminho do meio, é o trajecto que devemos percorrer. Não é fácil alcançar o equilíbrio e o caminho do meio. Mas devemos tentar, fazendo o nosso melhor, apreciando o vento que passa e ouvindo o canto dos pássaros enquanto cheiramos com prazer o perfume das rosas do nosso jardim. Os nossos dias são preenchidos, cada vez mais, com tarefas e coisas intensas e de uma multiplicidade sem fim. Ficamos exaustos e queixamo-nos a toda a hora que não temos tempo para nada. Não respondemos a uma mensagem a um amigo porque não tivemos tempo; nem fomos tomar café com alguém especial porque não temos tempo. Também não passámos o tempo que devíamos com quem esperava que o fizéssemos porque não temos tempo. Não temos tempo para nada nem para nós. O tempo passa a uma velocidade galopante. Um dia percebemos que ninguém tem tempo para nós. Esse dia será triste porque perceberemos da pior maneira o sinal negativo da reciprocidade. Como não fizemos nada por alguém também ninguém fará nada por nós. Temos que reflectir sobre o caminho andado e sobre o rumo que leva a nossa vida. Temos que nos organizar melhor! Há sempre tempo para um café, para um afecto, para uma boa conversa e para todas as coisas que nos dão prazer. É também por isso que temos que regar as nossas plantas e fazer a sementeira da reciprocidade positiva. Ninguém fica onde não existe reciprocidade. Às vezes pensamos, de forma errada, que possuímos determinadas pessoas. Ninguém é de ninguém. Na vida “nada é, tudo fluí” como dizia o grande filósofo da antiguidade Heráclito. As pessoas que julgamos serem nossas na verdade não o são. Mas se as quisermos ter junto de nós temos que as cuidar, temos que nos importar, temos que amar. É isso que vale a pena. É também por isso que devemos alimentar o caminho da reciprocidade tendo sempre a felicidade como horizonte.