Jueves, 12 de diciembre de 2019

De manhã, pela fresca!

Todos merecemos o descanso e o conforto dos nossos cobertores. A cama, a nossa cama, é sempre um ninho de afectos e um lugar de todos os sonhos. Quantas vezes prolongamos esse doce prazer de estarmos simplesmente na cama porque não nos apetece sair dela? Quantas vezes dizemos: só mais um bocadinho! Quantas vezes reprogramamos o despertador só para ficarmos mais um pouco nesse vale de lençóis, nessa fronteira da felicidade de não fazermos nada? Quantas vezes resistimos ao início do dia e nos deixamos estar sabendo que há muita coisa para fazer e que os minutos estão a passar e depois temos que fazer tudo mais à pressa? Quantas vezes nos pregamos à cama para não sairmos dela? Quando chove lá fora e se sente o vento passar com a pressa do costume, sentimos que o nosso lugar é na nossa caverna de lençóis e não no frio das ruas que a vida nos estimula a atravessar dentro de minutos para participarmos na construção de um novo dia. Sim, todos temos esse desejo de ficar ali, em relaxamento total, sem fazermos nada, sem pensarmos em nada! Mas, por outro lado, quando nos levantamos cedo descobrimos outros prazeres. Mergulhamos no dia que amanhece e participamos activamente na construção de todos os recomeços. Quanto temos que nos levantar mais cedo do que o habitual, para realizarmos uma tarefa, para fazermos uma viagem ou para anteciparmos a jornada de trabalho pensamos no infortúnio dessa condição. Julgamos que somos os únicos condenados àquele calvário de sermos arrancados à cama onde estávamos pregados. Mas, quando acontece esse antecipado despertar matinal deparamo-nos com outros que começaram o dia tão cedo como nós e com o suave movimento da cidade que aqui e ali prepara o dia para todos os outros que acordam mais tarde. Não nos damos conta disso, mas a vida desperta antes de nós para que nos possa acolher e abraçar com as coisas que necessitamos. A manhã, pela fresca, tem um encanto natural que cada vez mais aprecio. Talvez seja do avanço da idade e do caminho das pedras que tenho percorrido, mas gosto de sentir essa brisa da manhã que se mistura com o sabor doce e quente do café que acontece. Gosto de contemplar a montanha em silêncio deixando apenas espaço para que nos meus ouvidos possa entrar a doce melodia das aves que muito cedo começam a ensaiar para os seus magníficos concertos. É pela manhã que arrumo todas as ideias. É de manhã, pela fresca que me antecipo, sobretudo a mim, aos meus pensamos e às minhas tarefas. Nem sempre o faço, mas em cada manhã que me ativo mais cedo ganho tempo e espaço de vida. Absorvo as coisas de outra maneira e o dia ganha outra dimensão. Continuo a gostar da minha cama e de todos os prazeres que ela representa. Mas a manhã que corre cedo pelas ruas da minha cidade faz despertar raios de sol em cada esquina soprando luz para o caminho do dia longo, produtivo e repleto de encantos. Quando acordamos devemos agradecer, sempre! Quando acordamos cedo devemos aproveitar a oportunidade para desenharmos felicidade no horizonte, para nós e para os outros. É de manhã, pela fresca que surgem as cores mais vivas e as imagens mais nítidas de um tempo de construção e reconstrução permanentes. De manhã, pela fresca, atravesso a rua quase deserta e absorvo todos os pormenores que ontem não consegui ver no meio da multidão. Às vezes penso que tenho uma rua só para mim e uma cidade só para mim. Mas esse pensamento tem um tempo fugaz na medida em que é interrompido por um sonoro, bom dia! Afinal tenho que partilhar a manhã, pela fresca, com outros; com conhecidos e desconhecidos que antecipam o dia para o prolongar até que o sol se esconda no horizonte. A manhã, pela fresca, é uma bênção! Às vezes é apenas um simples acordar. Outras vezes é um renascimento que acontece e um mar de ideias que vem bater com força e prazer nas areias que os meus pés sentem; aproveito-as todas como se apanhasse conchas numa praia. Olho para o alto, contemplo a montanha, e agradeço, mais vez, a oportunidade de acordar cedo para poder desfrutar de todas as cores da vida!