Sábado, 17 de agosto de 2019

A vida entre nós e os outros.

“Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo eu.”  Ortega y Gasset

 

Os tempos que correm são de um individualismo exacerbado e também de imensa solidão. No caminho da nossa vida devemos regar as nossas plantas e celebrar as nossas amizades. Se não o fizermos acabaremos sós ou numa solidão acompanhada, repleta de espinhos. Podemos ter consciência de nós, das nossas capacidades e dos nossos defeitos. Mas sem os outros não seremos nada! Devemos cultivar a nossa individualidade, desenvolvê-la e fortalecê-la. Isso é muito importante para a construção da nossa identidade, da nossa história e do nosso caminho. Mas, nesse percurso, não podemos deixar de pensar nos outros e, sobretudo, de nos relacionarmos com eles, com todas as suas individualidades e diferenças. Isso, por vezes, não é fácil, exige respeito, tolerância… e também muita paciência. Nem sempre consigo cumprir esse desiderato. Mas tento, apesar de todas as minhas humanas imperfeições. Esse exercício é fundamental para construirmos a nossa personalidade e para abrirmos as portas ao desenvolvimento de uma existência plena e livre. Nem sempre o conseguirmos. Nem sempre estamos bem. Nem sempre damos o nosso melhor. Temos as nossas fragilidades. Somos humanos. Falhamos muito!  E os outros também falham muito connosco! Nesta ponte de relacionamentos e de afectos em que alicerçamos a nossa viagem não há vencedores nem vencidos. Há identidades que se constroem no acto de fazer coisas. Umas são acertadas e outras nem por isso. Aprendemos com tudo o que fazemos. Aprendemos com os outros e os outros aprendem connosco. E aprendemos uns com os outros em tudo o que acontece de bom e de menos bom. Recordo o filósofo Ortega y Gasset e a célebre frase “eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo eu” para reforçar a necessidade de enfrentarmos o mundo como é, com todas as suas circunstâncias! Nem sempre o vento sopra para onde queremos. Nem sempre as coisas correm como desejamos. O que verdadeiramente importa é reconhecermos a realidade como ela é para não fugirmos dela. Se não a enfrentarmos e tentarmos fugir das suas consequências e circunstâncias estamos a fugir de nós e a deixar que a sombra do que não somos nos persiga durante o nosso trajecto. Muitos identificam a sua sombra mas não a valorizam. Não lhe prestam atenção. Estão apenas focados em si, no seu umbigo e na sua ambição pessoal. Vão sozinhos para a frente. Não sabem bem para onde…mas vão para a frente! Para a frente dos outros! Vão apenas focados nisso, em chegar à frente. Pelo caminho vão pisando tudo e todos, desvalorizando amizades, amores e muitas…muitas circunstâncias. O seu absoluto individualismo cega-os. Torna-os mais fortes também! Não têm nada a perder. Não têm ninguém a quem cuidar. Não têm ninguém para amar ou carregar. Não têm amizades para celebrar. Isso é tudo uma perda de tempo! As amizades são de momentos estratégicos e com propósitos bem definidos. Não são puras! Não são verdadeiras! Têm apenas o sentido de os ajudarem a catapultar-se para a frente! Não valorizam nada nem ninguém. Para eles as circunstâncias são apenas fumaça! São manhãs de nevoeiro de onde não regressa nenhuma esperança… de onde não regressa nada que sirva a sua ambição desmedida! Muitos conseguem cumprir esta estratégia sem pestanejar! Têm sucesso, chegam-se à frente. Chegam-se à frente dos outros, dos que pisaram e dos que afastaram do caminho. Não perderam tempo com afectos nem com as circunstâncias do tempo. Seguiram sempre em frente, sem olhar para o lado. Sem olhar para os que precisam de pão ou de uma carícia, um abraço, um beijo…um toque de humanidade! Esses chegam-se à frente e vão quase sempre à frente de quase todos! Mas o problema é quando chegam à frente e não têm mais caminho para avançar. Chegam a uma espécie de cais onde a única barca que circula só faz viagens para a outra margem, para o outro mundo e para outras circunstâncias! Nesse momento a solidão instala-se com uma frieza inquebrantável! Enquanto embarcam na viagem da solidão sem retorno vão escutando as conversas do caminho dos outros e das suas circunstâncias, assistem a todas as fragilidades confessadas e não confessadas, a todos os defeitos e virtudes…e a todas as vivências das circunstâncias de todos os que decidiram fazer da vida uma festa e uma viagem de alegria, mesmo no meio de todas as dificuldades! Todos morrerão! Uns e outros! Todos atravessarão o rio e o homem da barca não recusará ninguém! Mas uns vão sozinhos e outros acompanhados. Uns chegarão repletos de feridas e de chagas, outros atravessarão o rio quase incólumes mas sem histórias para contar e apertados contra a parede da solidão que os esmagará até à eternidade. Nesse momento, os que sempre quiseram chegar-se à frente sem olhar para os lados e pisando tudo e todos perguntarão, certamente, se a corrida terá valido pena. Sim, a vida é esse espaço que deve ser construído entre nós e outros. Saibamos aproveitar todas as circunstâncias fazendo da vida uma celebração permanente!