Domingo, 19 de agosto de 2018

Segues pelo caminho traçado?

“Precisamos de um golpe de loucura para construirmos um destino”  Marguerite Yourcenar

A nossa vida cruza-se com muitos caminhos. Desejamos e sonhamos com determinados caminhos. Mas apesar de todos os sonhos, fantasias e desejos acabamos por percorrer o caminho traçado, o caminho que é mais fácil e confortável para nós. Somos assim, sonhamos muito mas fazemos muito pouco para transformarmos os nossos próprios sonhos em realidade. Desejamos muito e suspiramos que algo aconteça e nos toque com uma varinha mágica que nos transforme no que verdadeiramente desejamos ser e nos coloque no caminho que desejamos seguir. Quando o sonho atinge o seu máximo esplendor acordamos num sobressalto, tocamos nos lençóis e olhamos para o quadro que está sempre ali à nossa frente e percebemos que voltámos à terra do pó e de todas as coisas seguras e rotineiras. Então seguimos viagem, como sempre, pelo caminho traçado. Fazemos o contrário do que disse Alexander Graham Bell: ”nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros já foram.” E nós queremos ir para onde os outros já foram só para sentirmos a segurança do caminho certo? Sim ou não? Sabemos que por ali não há perigo, tudo seguirá conforme o previsto. Seguimos uma espécie de destino previamente conhecido como se na realidade se tratasse de uma ementa de um restaurante de pratos fixos para cada dia da semana. Já conhecemos o sabor de cada prato e vamos lá por isso. Não vamos à procura da diferença ou de experiências novas! Vamos pela segurança da rotina e da ausência de surpresas e novidades. Vamos pelo caminho traçado, tantas vezes percorrido pelos outros e por nós. Às vezes dizemos para os nossos botões que vamos ao tal restaurante novo só para experimentarmos uma coisa diferente. Mas quando a questão se coloca encontramos sempre um razão que nos conforta para escolhermos o mesmo restaurante de sempre e, provavelmente, o mesmo prato! Somos animais de hábitos e de caminhos traçados, onde todos os rituais inerentes fazem parte da nossa forma de ser. E isso não é necessariamente mau. Precisamos da constância e da previsibilidade. Precisamos da normalidade e dos caminhos da rotina. Há coisas que sabem sempre bem a uma determinada hora e num certo momento do dia ou da noite. Mas, no meio de tanto tempo de viagem devemos, pelo menos, ter a curiosidade de convocarmos o imprevisto para nos deixarmos envolver pelas coisas que acontecem sem guião previamente definido. Precisamos de um “golpe de loucura” para construirmos um destino como nos disse Marguerite Yourcenar. Sim, precisamos de loucura e coragem para sairmos do caminho traçado, para não seguirmos os outros e, fundamentalmente, para construirmos os nossos caminhos, o nosso destino e o nosso futuro. Temos que recusar a lógica da “carneirada” e também a segurança do “bardo”. Precisamos de correr contra o vento e passar por todas as tempestades para darmos valor à nossa essência e ao que valemos como seres humanos. Precisamos de nos ver. Não na forma como os outros nos querem ver ou onde nos querem encaixar. Precisamos de nos ver por dentro e assistir ao espectáculo da nossa própria metamorfose se, entretanto, nos conseguirmos libertar dos caminhos traçados. O destino existe. Mas cada um constrói o seu, seguindo pelo caminho que o coração mandar. Um dia as pessoas lembrar-se-ão de todos os que foram ousados. Mas dificilmente se lembrarão daqueles que, iguais a tantos outros, seguiram sempre pelo caminho comum, pelo caminho traçado. Isso também interessa pouco. A beleza da vida não assenta na busca pela notoriedade. Por isso, memória deve ser, acima de tudo, um alimento que vai no alforge da viagem do presente para nos recordarmos de nós, das pessoas que gostamos e das que gostam de nós. É também por isso que para sermos iguais a nós temos que, de vez em quando, sair do carreiro para deixarmos que o ar nos respire de forma densa e profunda, oxigenando os nossos sonhos para que se transformem em realidade. A viagem fora do carreiro é sempre mais dura, como todos sabemos. Mas também sabemos que é infinitamente para feliz na medida em que somos livres de voar para a dimensão de todas as possibilidades que o caminho novo nos abre. A descoberta é sempre uma felicidade. A aventura é um estímulo para seguirmos em frente. E a felicidade mora ao alcance da nossa mão! Então, ainda queres seguir pelo caminho traçado?