Sábado, 24 de agosto de 2019

Precisamos saber com o que contamos!

É o coração que faz o carácter”, Eça de Queirós

Há dias um grande amigo dizia-me que mais do que a inteligência, capacidade e competência das pessoas valorizava mais o carácter, na medida em que, ao longo da caminhada, precisamos sempre saber com o que contamos. Concordámos como concordamos e discordamos muitas vezes porque somos amigos de verdade. Mas esta constatação deste meu amigo levou-me a viagens infinitas e também a percorrer caminhos em geografias diversas do espaço e do tempo da minha vida. Na verdade, ao longo da nossa viagem - que se espera sempre longa - cruzamo-nos com muita gente de personalidade muito diferenciada. E sendo o carácter a característica mais importante da personalidade vamos percebendo, em demasiadas circunstâncias e ocasiões que a vida nos proporciona, identificando e, sobretudo, aprendendo a valorizar as mulheres e os homens de carácter, mesmo que muitas vezes não estejam em sintonia connosco! A vida é uma lição extraordinária! E o caminho da nossa vida é uma viagem fantástica e de constante aprendizagem. Aprendemos muito com os nossos erros. Aprendemos muito com as nossas hesitações e esperanças. Aprendemos, da forma mais dura, por esperar muito dos outros! No fundo, aprendemos muito com as desilusões. Um dia, uma pessoa que mora no meu coração disse-me que era muito importante aprender mais com os meus fracassos do que com todas as minhas vitórias! Essa frase, repleta de amor e sabedoria, caiu em mim como uma luz que, a partir dessa data, começou a iluminar o meu caminho de forma muito diferente. E quando a luz ilumina o caminho a caminhada torna-se mais leve mesmo que seja ainda mais difícil. Vivemos num mudo gelatinoso e de meias verdades, repleto de gente que não olha a meios para atingir os fins. Há gente que hoje diz uma coisa e amanhã o seu contrário com a mesma facilidade com que bebe um copo de água. Há gente que está connosco e que num instante, ao soprar do vento e perante a melodia das promessas vãs, se desliga de nós como se não existisse um tempo comum de muitas cumplicidades, alegrias e tristezas. O desejo de poder consome os homens e as mulheres, trai o coração, a amizade e o caminho do tempo que já passou. Para que alguns conquistem o poder no imediato vira-se uma página pesada de muitos anos com a mesma leveza como se de uma folha que cai de uma árvore se tratasse. O poder está ali à mão. Para que se alcance basta que se renegue o tempo que passou, as amizades que se fundaram e todas as caminhadas que, em conjunto, nos fizeram subir e descer a montanha. O poder é cego e também efémero como todos sabemos. Mas alguns ficam tão cegos e tão absorvidos pelas luzes que o mesmo representa que esquecem tudo o que aprenderam e também todos os afectos que partilharam e que ajudaram a construir. Por isso, e perante tamanha atractividade, partem sem uma lágrima e sem o menor sinal de saudade de um tempo de união na adversidade e de muita alegria genuína nas pequenas e grandes vitórias. Entretanto, os que ficam, fiéis ao carácter de sempre e em constante aperfeiçoamento, perguntam-se a toda hora o que fizeram de mal para deixarem fugir os que tanto protegeram e, acima de tudo, os que em tanto apostaram e confiaram. A vida é feita de ilusões e desilusões. E todos esses processos fazem parte do crescimento de cada um de nós. Mas, como dizia o grande Eça “é o coração que faz o carácter”. Por isso, constato, com grande tristeza, que há por aí muitos sem carácter ou talvez sem coração. Nenhum de nós é perfeito. Somos humanos e, nesse sentido, a oportunidade do erro é uma coisa constante no nosso caminho. Porém, recordo que o meu bom amigo dizia que precisamos saber com o que contamos. No fundo, julgo que ele queria dizer que, apesar de todas as nossas humanas imperfeições e limitações, precisamos saber com quem contamos para os numerosos desafios que o caminho nos apresenta. Nas relações da nossa vida, na amizade e nas outras coisas, precisamos de alguma previsibilidade para não ficarmos a falar sozinhos quando enfrentarmos uma caminhada no imenso deserto. Na espuma dos dias dos pequenos e grandes desafios contamos com muito poucos. Mas sabemos com o que podemos contar. E com eles vamos até ao fim do mundo! Sabemos dos seus defeitos e eles sabem dos nossos. Mas como é o carácter que nos une conseguimos, com maior ou menor dificuldade, atravessar todos os desertos que nos surjam pela frente! E, apesar de todas as dificuldades, superamos todos os obstáculos com alegria e entusiasmo porque levamos connosco aqueles que confiam em nós em qualquer circunstância! A amizade também é isso! E é uma coisa extraordinariamente bela!