Sábado, 17 de agosto de 2019

É a saudade que nos tem!

“Na verdade, não temos saudades, é a saudade que nos tem, que nos faz de nós o seu objecto. Imerso nela, tornamo-nos outros. Todo o nosso ser ancorado no presente fica, de súbito, ausente.”  Eduardo Lourenço

Escuto Cesária Évora na sua “Sodade” e deixo-me embalar na “morna” dessa imensa portugalidade, pátria de afectos e das imensas geografias da saudade. Esta palavra portuguesa e de difícil tradução é a cor do sentimento da lusofonia, de Portugal e de todos os lugares do mundo onde a língua de Camões toca o espaço e o tempo de muitas vidas e de muitas gerações. A saudade não se diz, não se traduz, sente-se! A saudade é Portugal e geografia de todos os que falam e sentem a língua portuguesa. É uma memória que não morre. É um pedaço de coração apertado que nos acompanha na nossa viagem. Os portugueses estão, desde sempre, habituados às viagens, às partidas e aos regressos e, tantas vezes, às partidas sem regresso, das que são para sempre! Entre as ondas do mar, o desafio do desconhecido e as múltiplas descobertas, muito para além do que a vista alcançava, os portugueses sempre foram, por necessidade e por impulso, mas com enorme coragem e tenacidade, para outros lugares sem nunca partirem, verdadeiramente, do seu chão quente, de emoções e de lágrimas! É também por isso que em todo o lado há um cantinho de Portugal e um cheirinho a lusofonia! É a saudade que faz lembrar as ausências e encurtar as distâncias dos caminhos e do coração. E por falar em saudade, como nos diz a magnífica canção de Vinícius de Moraes, perguntamos: “onde anda você? Onde andam os seus olhos que a gente não vê? A saudade é um vazio que se sente como o frio cortante de uma límpida manhã de Inverno que atravessa a avenida e nos bate no peito com força. Sentimos a pressão e a dor da ausência mas não largamos as memórias vivas do amor e do prazer, mesmo numa manhã de intenso nevoeiro. Há uma luz que nunca se apaga mesmo que o caminho seja escuro. Lembrando Teixeira de Pascoaes escrevo que a saudade é uma arte de ser português porque, como nos disse há muito, “saudade é criação, perpétuo casamento fecundo da lembrança com o desejo, do mal com o bem, da vida com a morte…". Os dicionários e os estudiosos da palavra esforçam-se por encontrar todas as conotações e denotações da saudade, essa ideia quase intraduzível que marca, de forma profunda, a sonoridade intemporal do fado e da alma lusa. Entretanto, continuam a soar os acordes pela calçada entre poemas e canções de embalar, entre navios e comboios que chegam e partem levando nas brumas a saudade dos que são nossos, como quem nos arranca um bocado do coração. Mas a saudade que mora junto ao peito não deixa que as memórias se abatam e que morram as imagens doces de afectos e alegria que um dia nos fizeram felizes! As fronteiras marcaram sempre os espaços e o tempo das viagens. Mas o coração da lusofonia não conhece os limites dos territórios, voa como as andorinhas à procura de todas as primaveras e do chão quente onde semeia sempre os tempos do futuro. É também por isso que, ao longo de muitos séculos, se foi construindo uma diáspora gigantesca que faz desta ponta da ibéria um pequeno país de uma grandeza incomensurável. Fernando Pessoa escrevia que “estava só e sonhava com a saudade”. Natália Correia corria a pena para nos dizer “uma saudade que se desvanece na poesia.” Somos um país de poetas e de gente de grande coragem que suportou sempre essa grande dor da separação de famílias inteiras porque era preciso ir à procura de pão para se pôr na mesa. Sempre limpámos as nossas lágrimas para seguirmos em frente! E os portugueses sempre trabalharam muito… em todo o lado! E é das suas mãos laboriosas que sempre nasceu o futuro deste povo à beira mar plantado e de coração aberto ao mundo. Hoje é este povo que guardo nesta grande mala de viagem que se chama saudade, palavra sentida e expressão maior de todos sentimentos da lusofonia. Eduardo Lourenço disse-nos que “na verdade, não temos saudades, é a saudade que nos tem, que nos faz de nós o seu objecto. Imerso nela, tornamo-nos outros. Todo o nosso ser ancorado no presente fica, de súbito, ausente.” É com esse sentimento forte que caminhamos em todos os labirintos da saudade e que, com persistência, manifestamos as nossas saudades do futuro!