Lunes, 9 de diciembre de 2019

O tempo das coisas.

“Nada é, tudo fluí”, Heráclito

O tempo é indomável. Segue o seu caminho sem pestanejar. Mergulha no seu percurso como um rio cujas águas seguem sempre viagem independentemente dos obstáculos que possam encontrar pela frente. As águas do tempo contornam todas as montanhas e atravessam tudo o que for necessário apenas para seguirem o seu destino. Todos sentimos isso. Todos sabemos isso. O tempo habita-nos. Consome-nos até à exaustão. Nem sempre da mesma maneira. Manifesta-se em velocidades diferentes. O tempo produz os seus efeitos. Avança em nós. Marca-nos. Envelhece-nos. Tira-nos espaço de vida. Não podemos agarrar o instante porque ele se esvai exactamente no momento em que pensamos que o podemos agarrar. Por isso, “nada é tudo fluí, como disse Heráclito, um dos grandes filósofos da Antiguidade. O tempo tem o seu tempo próprio que, quase sempre, não é o nosso tempo. O nosso tempo cruza-se com esperas e esperanças, com ansiedades, desilusões e frustrações. O nosso tempo esgota a paciência e todas as expectativas criadas. Esvazia as ilusões. Transporta-nos para a realidade vivida que está quase sempre em desacordo connosco. É uma batalha constante entre nós e o tempo que passa sem contemplações. Por isso, há quem viva em função dos ponteiros do relógio e quem ignore todas as formas de medição e controlo. Uns são escravos do tempo. Outros libertam-se das suas amarras sempre que podem. Mas ninguém se liberta verdadeiramente do tempo na medida em que ele é senhor de todas as geografias. É precisamente aí que percebemos o tempo das coisas. Esse tempo é diferente do nosso. As coisas têm um tempo próprio. Começam e acabam. Alinham-se num percurso linear, como um guião perfeito, como uma história de princípio, meio e fim. Nós somos metamorfoseados pelo tempo. As coisas e o tempo das coisas transformam-nos. Impõem-nos o seu ritmo. Mudam-nos, por dentro e por fora. As coisas não se deixam contaminar pelo flagelo da ansiedade, pela espera, pelas horas certas para isto e para aquilo. As coisas vivem de forma imperial no caminho do seu tempo que é sempre o tempo certo, seja de dia ou de noite, faça chuva ou sol. Às vezes apetecia-me ser uma coisa para também ter a serenidade da hora certa e poder contar uma história linear que começa e acaba como deve começar e como tem que acabar. Mas isso não é possível porque o tempo que me habita é diferente do tempo das coisas. O tempo das coisas é um tempo certo e um mecanismo inconsciente de enorme felicidade na medida em que não existem pensamentos sobre a finitude e sobre o tempo que passa. São de uma existência contínua cuja serenidade mexe com todas as nossas entranhas que se exaltam a cada curva da vida. O pior de tudo é a espera do tempo que não chega. As coisas são eternas. Vivem no presente. O nosso tempo é diferente. É mais denso, perturbado e perturbador. Nem sempre estamos onde devemos estar. Viajamos no tempo sem darmos conta. Andamos para frente e para trás. Pensamos à frente em vez de vivermos o agora. Queremos viver agora e pensamos no passado. Parece que só estamos bem onde não estamos. Assim não vivemos. Existimos. Mas não acertamos o passo com o tempo. Não somos coisas. E o nosso tempo não é o tempo das coisas. As coisas têm o seu lugar e nós não temos lugar nenhum. Somos de todos os lugares e protagonistas de uma história sem fim apesar de todas as nossas finitudes. Somos assim, imperfeitos e inconformados. Não somos coisas. Nem vivemos no tempo das coisas. Vivemos no tempo que nos habita e que nos consome até à exaustão.