Jueves, 12 de diciembre de 2019

A fronteira da solidão

“Quem não souber povoar a sua solidão, também não conseguirá isolar-se entre a gente.” Charles Baudelaire

Todos experimentamos a solidão. Umas vezes porque a procuramos e outras porque ela entra na nossa vida sem bater à porta.  Entre as duas circunstâncias há uma fronteira que separa ou une a solidão que nos toca quando queremos e quando não queremos. A solidão que procuramos é essencial para nos encontramos e para procurarmos o que somos, verdadeiramente. Para isso, precisamos da solidão e do silêncio que ela convoca para nos escutarmos, para sentirmos o bater do nosso coração e seguirmos o mapa intuitivo que nos levará ao encontro de nós. Nesse exercício, nem sempre fácil, o barulho distrai-nos e confunde-nos. Muitos rejeitam a solidão e, mais do que isso, não a procuram porque não querem ser confrontados com o desejo da realidade e do eu mais intimista. Despidos de metáforas encontramos no caminho da solidão a nossa nudez que reflecte a nossa personalidade de dentro. É no recanto da maior solidão que nos contemplamos e exercemos o direito e o dever de nos confrontarmos com os caminhos que escolhemos até ali, àquele instante, os bons e os maus. Todos precisamos dessa pausa, desse silêncio escolhido, dessa geografia da atenção que nos devemos. No silêncio conseguimo-nos reagrupar ao mesmo tempo que avaliamos as nossas forças e as nossas fraquezas. É também naquele caminho sem som que nos reerguemos tantas vezes das nossas quedas ligeiras e abruptas. É naquele sentido silencioso que lambemos as nossas feridas e também que nos recompomos de todas as batalhas perdidas e dos efeitos de todas as tempestades. A solidão é um tempo que não podemos dispensar. Mas também não podemos deixar que ela nos domine. Ela é uma sedutora extraordinária. Deseja-nos a toda a hora. Faz-nos bem é certo. Mas, se deixarmos, estimula-nos até ao limite para construirmos muros à nossa volta, para nos isolarmos de nós e dos outros.  É, precisamente, nesse ponto do caminho que ela se torna perigosa. Por isso, não podemos deixar que ela nos seduza, principalmente quando nos sentimos em completa nudez. Precisamos da solidão mas não a queremos em exclusividade. Precisamos dos outros. Precisamos de todos os que nos completam e que nos amam sem condição, apesar de todas as nossas limitações e defeitos. Por isso insisto na ideia da solidão como uma fronteira, como uma geografia que une e separa. É sobretudo a nossa atitude e o nosso pensamento que podem fazer a diferença. Quando caminhamos junto a essa linha mágica podemos e devemos deixar-nos levar pela emoção e pela leveza do momento. Mas também devemos regressar ao equilíbrio para, pelo menos, cumprirmos o desiderato de Charles Baudelaire a este propósito: “quem não souber povoar a sua solidão, também não conseguirá isolar-se entre a gente.” Ora aqui está um bom caderno de encargos para que ousar atravessar, vezes sem conta, a fronteira da solidão. Nem sempre podemos ter o melhor dos dois mundos. Mas podemos tentar!