Sábado, 7 de diciembre de 2019

Os adaptadores

Quando, regra geral, nos referimos a adaptadores pensamos logo no universo informático e nos dispositivos de hardware ou componentes de software que convertem dados transmitidos. Podemos pensar também em adaptadores de vídeo ou adaptadores de USB. Existe ainda um número infindável de pequenas e grandes soluções técnicas que são fundamentais para adaptarem isto e aquilo, fazendo funcionar muitas coisas e permitindo a realização de múltiplas tarefas. Mas, na verdade, quando penso em adaptadores lembro-me, acima de tudo, daqueles que, feitos de carne e osso, se adaptam a todas as circunstâncias. Esses são os verdadeiros adaptadores! Há por aí muitos! E safam-se bem. Adaptam-se a tudo. Mudam de posição como o vento. Nunca caem de patamar algum uma vez que andam sempre junto ao chão. Rastejam, portanto. Dizem sim e não como quem bebe um copo de água. Não têm opinião sobre nada. Pensam sempre como o chefe. De um chefe determinado e de um determinado momento, na medida em que serão os primeiros a mudar de terreno se o chefe cair. São bons estrategas. Estão sempre do lado certo. Mas nunca têm opinião. Não dizem nada sobre nada. Não assumem nada. Esses seres extraordinários e de grande proliferação observam atentamente a corrente dos dias apenas para perceberem em que lugar se devem sentar para depois seguirem viagem do lado certo da história do momento. Os adaptadores são uma espécie forte e com grande margem de progressão. Andam por aí, contentes da vida. Tudo lhes corre bem. Não se chateiam com nada. Não tomam posição sobre nada. Não têm opinião sobre nada. Apenas ficam à espera para verem que ganha determinada contenda para aplaudirem o chefe. E vão-se safando, mesmo sem fazerem nada nem dizerem nada. Gostam de actuar nas sombras e em caminhos onde podem rastejar à vontade. Mas, ao fim de muito caminharem sem terem posição nenhuma e não pensarem em nada e de não terem uma opinião sobre nada estes adaptadores despersonalizam-se e acabam também por não serem nada! Conformam-se, como nos disse Aldous Huxley, no seu “Admirável Mundo Novo”, com um modelo padronizado em que todos fazem esforços para se tornarem autómatos. Neste tempo vertiginoso e de grandes vazios precisamos, mais do que nunca, da diversidade e do combate de ideias e, principalmente, daqueles que, com coragem, abraçam os desafios mais difíceis sem terem medo de perder. Não devemos fazer a apologia do contra apenas porque é preciso alguém estar contra alguém ou alguma coisa. Não precisamos de águas agitadas apenas para contemplarmos a beleza do movimento. Precisamos de gente que faça; de gente que tenha ideias e, sobretudo, que esteja disposta a colocá-las em confronto, em dialética...em combate! A nossa civilização foi avançando graças à coragem de poucos que em determinados momentos do tempo da história da humanidade seguiram em frente mesmo quando todos os outros lhes diziam para não seguirem por ali. Tantos e tantos pereceram às mãos de cruéis ignóbeis apenas porque não queriam sair da sua zona de conforto nem que fosse apenas para espreitar para o outro lado da montanha. A civilização como a conhecemos foi construída à custa de muito sangue derramado e de muitas lágrimas vertidas por montes e vales. O sofrimento andou quase sempre de mãos dadas com a determinação, com vontade. A injustiça reinou tantas vezes sobre a justiça e quantas e quantas vezes as trevas não ofuscaram a luz. Mas, a vontade daqueles que sempre se recusaram a seguir a corrente foi sempre mais forte. E assim fomos ganhando espaço e dias de liberdade, repletos de emoção e coração. E, naturalmente, de avanço civilizacional. É por isso que em tempos tão conturbados como estes devemos evocar a razão, a força e a determinação de todos os que fazem andar os tempos, recusando todos os conformismos. É também por isso que devemos dizer bem alto, para que os adaptadores possam ouvir, que o “rei vai nu”!