OPINIóN
Actualizado 13/04/2026 08:21:30
Miguel Nascimento

Todos deixamos dias para trás. Vamos avançando no caminho, acumulando dias, histórias de vida e experiência. Num determinado momento vamos deixando mais dias para trás do que esperamos cumprir para a frente. É justamente nesse momento de transição que mais vontade sentimos em revisitar o passado, em particular alguns dos dias que ficaram para trás. Não para julgarmos ou analisarmos o que fizemos bem ou mal. Mas para percorrermos a memória de um tempo longínquo que, naturalmente, fez de nós o que somos hoje. Não podemos alterar o passado. Ele está cumprido. Mas há pedaços dos dias que ficaram para trás que nos ajudam a compreender melhor o que somos no tempo presente. É sempre bom revistarmos o passado, não para nos agarrarmos a ele como se não houvesse amanhã. Mas para nos religarmos. Para aproximarmos todos os tempos que acrescentaram momentos felizes, afectos e alegrias, bem como todos os outros que, pela sua dureza, nos proporcionaram as lições que precisávamos de aprender. Escrevo este pequeno texto embalado pela música e letra do mais recente trabalho de Paul McCartney - Days we left behind - que aos 83 anos e depois de uma vida longa e recheada de sucessos, sente a necessidade tranquila de revisitar “The Boys of Dungeon Lane” e os dias que ficaram para trás. Todos temos necessidade de recordar as nossas geografias de infância e adolescência, autênticos quadros com gente dentro. As memórias podem e devem ser desfiadas, uma a uma, sempre que tivermos essa vontade ou necessidade. Ao voltarmos a repousar os olhos sobre imagens marcantes dos dias que deixámos para trás não podemos deixar de nos comover e balancear a nossa centralidade em relação ao futuro, com base na força do caminho andado. O tempo é o que é. Mas também é, acima de tudo, o que fizermos dele. Nada dura para sempre. Mas também nada, nem mesmo os pequenos fragmentos do passado, são a preto e branco. Saibamos seguir o caminho, honrando todas essas memórias. Nunca sabemos onde podemos chegar para além da curva do desejo. Mas se soubermos de onde partimos podemos sempre ter um cais de referência onde, de vez em quando, nos apetece regressar.

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