Vivemos num tempo demasiado acelerado e vertiginoso. Há muito que reflito sobre a imperiosa necessidade de desacelerarmos para fazermos melhor e de forma mais ponderada, menos irrefletida, mais acertada. Tomamos decisões e realizamos ações, de forma imediata, sem pensarmos nelas. Sem as maturarmos.
Sem seguirmos os passos de um tempo demorado, absolutamente necessário e urgente. O conceito do “vagar” foi, justamente, o mote que alavancou e elevou a bonita cidade de Évora, pátria do tempo que caminha em serenidade, a capital europeia da cultura no próximo ano.
A aprovação desta candidatura com este sentido é, verdadeiramente, o triunfo do vagar, do “a fuego lento”, do fazer com minúcia, do sentir e saborear, sem pressa. Com esta grande iniciativa cultural Évora levará o “vagar” à Europa e ao mundo.
Assim seja. Aprendamos todos com a excelsa cultura alentejana e com a imensa sabedoria dos alentejanos. Na verdade, num mundo que corre, apressadamente, o Alentejo caminha na sua segura e forte lentidão.
E nesse caminhar demorado reside uma das suas maiores forças culturais: o vagar. O vagar não é lentidão improdutiva, nem ausência de ambição. É, antes, um modo de estar. Um tempo ancestral, estrutural se assim o entendermos, que organiza a paisagem, a palavra e o gesto. No Alentejo, o tempo não é inimigo — é matéria-prima.
Molda o trabalho agrícola, amadurece o vinho, prolonga a conversa à sombra, à volta da mesa e sustenta o canto coletivo. O vagar é o compasso invisível que harmoniza comunidade, território e memória.
Todos os que introduziram e validaram o conceito do “vagar” nesta candidatura fizeram o óbvio e, ao mesmo tempo, o excecional e também a necessária justiça ao melhor dos tempos. A valorização desta fortaleza cultural não foi feita, escrevo eu, como uma homenagem à nostalgia, mas como uma proposta, um convite ao futuro.
Num continente atravessado pela aceleração tecnológica, pela urgência permanente e pela cultura da resposta imediata, o vagar afirma-se como alternativa crítica e criativa. Propõe uma outra relação com o tempo: mais atenta, mais profunda, mais humana.
O vagar é resistência à superficialidade. É a recusa da pressa como valor absoluto. É o direito ao intervalo, à escuta e à contemplação. Num mundo dominado pelo imediato, o Alentejo recorda-nos que o que é duradouro exige maturação — ideias, afetos, projetos, identidades.
Há, no vagar, uma ética e uma estética. Ética, porque respeita os ritmos naturais e humanos. Estética, porque valoriza o silêncio, a paisagem ampla, o horizonte sem ruído. O vagar ensina-nos que cultura não é apenas produção constante, mas também incubação, cuidado e partilha.
Mais do que um traço regional, o vagar é uma proposta universal. É uma pedagogia do tempo. Convida-nos a desacelerar para compreender, a demorar para criar, a permanecer para pertencer.
Num tempo histórico marcado pela velocidade e pela fragmentação, a extraordinária geografia humana do Alentejo oferece-nos uma pergunta essencial: e se a verdadeira modernidade residir na capacidade de abrandar?
Vagar é, afinal, a arte de dar tempo ao tempo.
E talvez seja precisamente disso que a Europa — e o mundo — mais precisam. Portugal, a partir do Alentejo, essa terra lenta e bela, dá o seu melhor contributo com esta proposta cultural. Venha daí essa justíssima capital europeia da cultura, na magnífica cidade de Évora, para celebramos o vagar que todos merecemos.